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A Dama de Ferro – resenha crítica do filme


Tal como na literatura, sempre é muito arriscado desenvolver biografia em cinema. Digo isso porque o diretor acaba correndo o risco de elevar uma personagem a um patamar maior do que ela realmente merece. Não pela questão da importância que historicamente ela tenha tido para sua comunidade, mas porque obrigatoriamente a biografia se vê num labirinto onde a única saída é resgatar o biografado de seus supostos erros e atitudes controversas do passado. Isso é um vício inerente a qualquer escritor ou diretor de cinema. Ao se propor a biografar alguém, promove-se uma espécie de hagiografia, inconsciente – e em muitos casos, levada às telas do cinema. Inevitavelmente, a atenção despertada em quem se propõe a escrever sobre o Outro, o leva a desconsiderar certos elementos negativos sobre ele.  E isso acaba criando uma imagem errada nas novas gerações, que consomem livros e cinemas.

É o caso da recém cinebiografia “A Dama de Ferro” (“The Iron Lady”), que está em cartaz nas principais salas de cinema do país. Nela, é retratada a vida da ex-Primeira-Ministra britânica Margaret Hilda Thatcher – conhecida pelo apelido de “Dama de Ferro”, por ter sido a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra da Grã Bretanha. Thatcher desde cedo entrou para as fileiras do Partido Conservador, tendo em 1959 ocupado uma cadeira na Câmara dos Comuns. Foi ainda Secretária de Estado para Assuntos Sociais e Ministra da Educação e Assuntos Científicos, durante o mandado de Edward Heath. A Dama de Ferro seguia as normativas econômicas de Friedrich Hayek, e por isso foi a líder mais radical, de Direita, do Partido Conservador. Já tendo substituído Heath no comando do Partido, implementou um programa de redução da intervenção estatal e um árido programa de privatizações. Isso a levou a enfrentar a impopularidade diante dos britânicos. Postulava o liberalismo econômico e o monetarismo, tendo reduzido os serviços sociais e praticamente abolido o salário mínimo. Se por um lado, já como Primeira-Ministra (eleita em 1979), alcançou a austeridade administrativa, por outro viu a inflação galopar durante seu mandato, com efeitos colaterais como o aumento do desemprego (em 1981 existiam 3 milhões de desempregados no Reino Unido. Enfrentando recessão econômica e fortes questionamentos sobre sua (quase inexistente) política social, Thatcher teve na Guerra das Malvinas a oportunidade de reverter o cenário nebuloso em que se encontrava. O efeito foi o mesmo que os militares argentinos, comandados pelo general Leopoldo Galtieri, tiveram: a popularidade e altos índices de aprovação.

Talvez esse seja o momento mais lúcido de “A Dama de Ferro”: mostrar o paradigma vivido por Thatcher na questão das  Malvinas. Mesmo tendo seu gabinete bastante dividido (os militares queriam a guerra, já seus conselheiros, não), agiu por conta própria, apostando no acirramento de posições – e colheu frutos disso depois. Já os demais fatos de sua cinebiografia, apresentada neste filme, correspondem a resgates positivos, de sua carreira política – o que em muitos casos, como já citado no início deste texto, margeiam perigosamente a vida dos biografados, nem sempre sendo a verdade numa história factual. A biografada, que ainda hoje luta contra o Mal de Alzheimer, promove então uma análise de sua trajetória política, sempre cortando para o “presente” em que vive e retornando ao passado, em várias idas e vindas – o que pode ser encarado como um ponto positivo, já que foge do tradicional roteiro linear.

A atuação de Meryl Streep dispensa comentários. É o outro ponto positivo do filme e, junto da verdadeira vocação conservadora e radicalmente direitista da biografada – retratada na tela -, é o ponto alto apresentado. No entanto, a atriz consegue, em certos momentos, chamar mais a atenção (por seu desempenho) do que propriamente a personagem central do filme. E mesmo tendo uma atuação muito boa, Meryl Streep não merecia (desta vez) o Oscar – que ficaria em boas mãos com Viola Davis (“Histórias Cruzadas”) e, por que não, Rooney Mara (“Millenium: os homens que não amavam as mulheres”). Streep ganhou o Oscar por seu peso como atriz e porque Hollywood gosta de premiar biografados – como Marion Cottilard em “Piaf: um hino ao amor”, por exemplo.

“A Dama de Ferro” vale como possibilidade de conhecer um pouco da história da Inglaterra contemporânea, dos anos 1970 e 1980 – tão pouco estudados e observados pelas novas gerações.  Como filme em si, em sua demonstração como arte, é de pouca valia – inclusive porque apresenta-se arrastado em certos momentos.

TRAILER OFICIAL LEGENDADO:

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  1. Rubens
    março 2, 2012 às 0:07

    Malvinas?… Bah!… Enquanto as ilhas FALKLANDS pertencerem, de pleno direito, ao Reino Unido – e habitada exlusivamente por súditos britânicos que sequer querem ouvir falar da Argentina – o nome dela é esse: FALKLANDS. :-)

  2. Lucas Francisco
    maio 1, 2012 às 14:05

    Olá,
    É perceptível que este texto é rico em informações, altamente completo, e ótimo para trabalhos acadêmicos e escolares. Por esse motivo, gostaria de informar que no segundo parágrafo, sétima linha, exatamente a sétima palavra, está equivocada.
    Mandado- é uma ordem jurídica. (mandado de busca e apreensão, mandado de citação, etc.)
    Mandato, que seria o correto para a ocasião apresentada,- é quando alguém tem autorização para praticar determinadas ações em função de outros. Logo é um poder que alguém conferiu a outro, a fim de agir em seu nome. Significa: procuração, delegação. No geral, é usado em termos políticos para designar os poderes que são conferidos a um homem que representará os cidadãos durante um período determinado.

    espero lograr vosso entendimento, e uma posição em relação ao ajuste do texto.

    Muito obrigado!

  3. agosto 24, 2013 às 11:39

    Sou estudante de Gerência em Saúde, estou fazendo um trabalho sobre esta mulher maravilhosa

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