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José Alencar e a glamourização de uma personalidade


Morreu o ex-presidente José Alencar. Desde terça-feira, 29 de março, essa frase virou notícia praticamente em todos os jornais, televisões e redes sociais. Representante da tradicional família mineira, José Alencar à primeira vista reunia todos os adjetivos de brasileiro exemplar, pai de família, trabalhador e político com boa índole. Começou do nada e até às vésperas de sua morte, era dono de um império industrial – a Coteminas. José Alencar também sabia fazer política: foi uma das principais figuras primeiramente do Partido Liberal (PL) e depois do Partido Republicano Brasileiro (PRB), tendo inclusive sido decisivo para que o candidato Luís Inácio Lula da Silva (PT), em sua quarta eleição para presidente, em 2002, ultrapassasse a barreira dos 30% de votos que o PT sempre tivera nas eleições anteriores. José Alencar, que compusera a chapa presidencial junto a Lula, em 2002, representava a parcela de votos que faltava para que o PT, enfim, vencesse o temor que a classe média/classe média alta sempre tivera com relação a um torneiro mecânico e sindicalista, chegasse ao poder. No entanto, lutava há mais de 13 anos contra um câncer, que o levou a sofrer diversas intervenções cirúrgicas, de todo o tipo. O ex-vice-presidente até mereceu uma biografia, “José Alencar: amor à vida — a saga de um brasileiro”,  escrita pela jornalista Eliane Cantanhêde.

Logo após a morte de José Alencar, uma avalanche de posts e tweets tomou conta dainternet. Milhares de pessoas escreveram sobre o ex-vice-presidente, que acabara de falecer, aos 79 anos. Gente de todo o tipo, frases clichês: “Grande brasileiro”… “Exemplar pai de família”… “Boa praça”… “Exemplo de luta contra a doença”. Muitas dessas pessoas que certamente jamais se interessaram por política, talvez tenham lido “alguma coisa” sobre o ex-vice-presidente mas que, confirmando a tônica de um fenômeno que já virou moda nas redes sociais, “entrou na onda” e passou a “compartilhar” as mesmas frases (feitas) e notícias sobre a personalidade que acabara de partir. Porque isso? Certamente porque seja bonito exaltar o que todos exaltam. Talvez porque dignificando uma personalidade conhecida, que vendeu uma imagem de correção, todas as pessoas pudessem se eximir da culpa da vida que levam. Ou simplesmente talvez porque fazendo parte do elogio generalizado, as pessoas possam ter uma referência inconsciente e desejem ser como ele.

Entretanto, aí deslindam-se dois fenômenos que talvez tenham passado despercebidos. José Alencar, até pouco antes de falecer, enfrentava um processo de paternidade que já durava 10 anos. Ele NÃO RECONHECIA uma suposta filha – Rosemary de Moraes, de 56 anos, natural de Caratinga (MG) – mesmo ela tendo conseguido na Justiça a determinação do reconhecimento de paternidade. E se recusou a fazer o teste, para confirmar se era ou não o pai. Quase canonizado em vida, José Alencar morreu recusando o gesto que se espera de todo homem que tem dignidade: fazer exame de DNA em ação de reconhecimento de paternidade. Renegou a filha mais velha e insinuou que a mãe, enfermeira de Caratinga, era “prostituta”, ao sair-se com a infeliz declaração, dada no Programa do Jô, na Rede Globo:

– “Não há uma pessoa que tenha dito que essa mulher foi vista comigo algum dia. Então como não há nenhum indício então as pessoas pegam por aquilo, ou fazem o DNA ou não fazem. […] Então eu não vou me submeter a uma coisa dessa de forma nenhuma. Do contrário, todo mundo vai chegar e dizer você tem que fazer isso, fazer aquilo, com uma chantagem qualquer. E eu não estou habituado a ceder a chantagens.”

Não estamos aqui querendo julgar ninguém, até porque os atos da vida pessoal de cada pessoa não nos dizem respeito. Mas o que é possível perceber é que hoje vivemos a rápida e instantânea glamourização das personalidades. A unanimidade que se formou em torno do ex-vice-presidente, incomoda um pouco. Primeiro, como já foi dito, pela moda que se transformou “falar bem de alguém que parte desta para melhor”; segundo porque o fato de José Alencar lutar contra um câncer por mais de 13 anos não foi privilégio somente dele. Quantos brasileiros sofrem, neste momento, as consequências do tratamento de um câncer? Quantos brasileiros não dispõem de recursos (que José Alencar dispunha – e nisso não haveria problema algum, já que ele era um industrial bem-sucedido, usufruindo dos lucros de seu trabalho) para pagar um tratamento de câncer?

Então, precisamos refletir até que ponto, inconscientemente nos transformamos em reverberadores de notícias, de conceitos e de valores. É como se recebessemos uma corrente e repassássemos, apenas porque achamos bonitinha a mensagem e gostaríamos que assim fosse conosco. Talvez a momentânea da exaltação que a personalidade José Alencar vive neste momento, após sua morte, seja decorrência da falta de informação sobre esse episódio do não reconhecimento de paternidade e também de uma boa assessoria de imprensa, que tenha encoberto a infeliz declaração dada pelo ex-vice-presidente. Mas pode ser também um indício – senão a confirmação – de que a sociedade chancela, de forma machista, que seja natural que um homem vá a zona, faça um filho e depois desmoralize a mulher que o atendeu no prostíbulo.

Decerto que ninguém é só “bom” ou “ruim” durante a vida. José Alencar teve inúmeras qualidades durante a vida, mas destratou uma mulher em sua condição social. E há muito de hipocrisia nos elogios sem freios ao morto ilustre da República.

Entendam o caso da paternidade que José Alencar não quis assumir:

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Categorias:Uncategorized
  1. Ari Dias
    março 31, 2011 às 15:30

    Parece que morreu um santo. Empresário, Liberal, capitalista , alcança o sucesso e reconhecimento por ser vice-presidente do Lula, e quando morre vira uma espécie de Madre Tereza de Calcutá. Em breve teremos um novo Santo Brasileiro.

  2. Lea
    março 31, 2011 às 17:13

    É…. todo mundo depois de morto vira herói. Muito comum.
    Gostei do seu ponto de vista, Fabricio.

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