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Desarmamento? Não, obrigado.


Sim, sei que o título desse blog certamente provocará polêmica. Afinal, o momento é de comoção popular em torno da tragédia de Realengo, onde um jovem assassinou doze crianças indefesas, atirando para matar. Mas além da imediata espetacularização da tragédia, o que mais tem chamado a atenção é o ressucitamento de um tema que já tinha ficado para trás em 2005: a questão do desarmamento da sociedade.

Diversas autoridades em Brasília, certamente movidas por interesses ideológicos e partidários, logo fizeram questão de levantar novamente o tema do desarmamento. E não foram apenas políticos. Desde o ministro da Justiça até artistas globais, de repente o universo midiático adornou-se de uma fleuma inconteste: “Está mais do que na hora de desarmarmos a sociedade”.  Fica então a pergunta: pra que serviu o referendo sobre a proibição da comercialização e venda de armas de fogo e munições, ocorrido em outubro de 2005, quando 63,94% dos brasileiros disseram NÃO à seguinte pergunta: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”? Joga-se no lixo agora o resultado daquele referendo popular? E o dinheiro gasto pelo governo na mobilização das urnas eletrônicas? E o dinheiro gasto em cada campanha, pelo SIM e pelo NÃO? Vamos esquecer tudo isso? Democracia é isso então? É aceitar momentaneamente um resultado para, depois, no primeiro episódio de violência, de repercussão nacional, querer virar o jogo e novamente tentar passar uma intenção que já foi derrotada? Vivemos então uma democracia transitória, sujeita a intempéries, reforçadas por apelos que interessam apenas a determinados grupos?

Como já escrevi aqui neste blog, embora assíduo usuário das redes sociais, como Twitter e Facebook, tenho certas restrições a alguns comportamentos que vejo nessas redes. Nunca Nelson Rodrigues foi tão genial quando disse uma vez que “Toda unanimidade é burra”. Sim, porque as redes sociais, além de servirem de cenário para se fazer “um milhão de amigos”, são também plataformas onde se difundem idéias, tornando um simples comentário, uma unanimidade. No Facebook, as opções “Curti” e “Compartilhar” são infalíveis nesse ponto. Então basta alguém se aproveitar da emoção de um momento para difundir um ponto de vista, que é um tal de todo mundo curtir e compartilhar, que quando você vê, tornou-se moda no Facebook. A ponto de virar A VERDADE. E ai de quem discordar. Então o que mais vi, a partir do dia em que o assassino de Realengo matou as crianças, foi o sentimento de “Viva o desarmamento” nas redes sociais.

OK, qualquer um pode ter a opinião de que o desarmamento é a melhor opção para o Brasil. Só que querer passar por cima de um referendo que mobilizou milhões de pessoas, gastou os tubos de dinheiro e tomou o tempo de muita gente, e também querer fazer de uma idéia uma unanimidade na base do “compartilhar”, não concordo. Então justamente por isso existem referendos, plebiscitos, eleições. Para a maioria escolher uma idéia, um candidato, e o restante que votou contra, aceitar. Afinal, democracia é isso, e não “engolir” um resultado e na primeira oportunidade que surge, querer revertê-lo.

Além disso, o enfoque dado a essa “reinvenção” do desarmamento, versão 2011, é igual aodado na campanha derrotada de 2005: querem desarmar a sociedade, proibir venda de armas em estabelecimentos comerciais. Só esquecem de um detalhe: bandidos, traficantes e delinquentes (como o tal Wellington, de Realengo) não compram armas em lojas, com nota fiscal. Tampouco vão a cursos de tiro, com professores especializados. Existe um grande e rentável comércio de armas no Brasil. Armas que vêm do Paraguai, por avião, e descem em pistas clandestinas no meio da selva, e armas que chegam às metrópoles pelo mar, em cargueiros piratas, durante alta madrugada.

A questão não está em proibir a venda e sim prevenir que armas caiam nas mãos de pessoas que irão utilizá-las para o mal. Qualquer objeto pode ser uma arma em potencial. Se eu pegar um livro de 900 páginas em minha biblioteca, e der com ele na cabeça de alguém, certamente essa pessoa terá sérios problemas, podendo até ter um traumatismo craniano, sequelas, etc. No filme “O Poderoso Chefão 3”, Michael Corleone manda um de seus homens assassinar um rival. O pretexto da visita, claro, são os “negócios”. O sujeito chega e é rigorosamente revistado pelos capangas do outro. Tudo limpo. A conversa segue meio tensa. De súbito, o enviado de Michael se levanta, arranca os óculos do outro, quebra a haste e lhe enfia na carótida. Feito! Nas mãos de um psicopata ou de um assassino contumaz, até a Bíblia pode ser uma arma mortal.

Sinceramente, gostaria de ver tanta mobilização como esta, a favor do desarmamento, na busca em acabar com o mercado negro das armas, em se retirar realmente armas de bandidos. Queria ver uma mobilização generalizada em prol da defesa do voto consciente nas próximas eleições. Em favor da população de rua, das crianças malabaristas nos sinais de trânsito. Ou então, que a população no Twitter ou Facebook se indignasse em ver o Tiririca empregar dois compadres do riso, ganhando salário com o dinheiro público.

Aí sim, eu compartilharia isso em minha rede social.

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  1. Ari Dias
    abril 13, 2011 às 21:10

    Concordo, eu votei nesse plebiscito de 2005, por acaso eu votei não ao desarmamento por acreditar que nenhum bandido vai à loja de armas pra comprar uma. Mas levando em consideração quem está liderando esse movimento(José Sarney) não dá pra esperar que ele respeite qualquer opinião que venha do povo.

    • abril 14, 2011 às 2:13

      Arilson, também votei pelo NÃO em 2005. Não é só o Sarney que está liderando. O ministro da Justiça (petista) também. E nessa onda aparecem vários artistas, querendo se aproveitar do momento de comoção popular, pegando carona nisso, para ganhar fama. Infelizmente esse é o Brasil. Abraços, Fabrício

  2. Carlos Antônio
    abril 14, 2011 às 1:45

    Impensável gastar novamente a dinheirama que se gasta com um novo plebiscito, referendo, seja lá o que for. O oportunismo sentimentalóide do político brasileiro é indescritível. Imensurável.
    Sei não! Parafreseando aquela história da saúva, ou o Brasil acaba com o Zé Sarney ou o Zé Sarney acaba com o Brasil.
    Eu não abro mão do meu direito de ter armas.
    No caso particular desse esquizóide de Realengo, nada poderia ser feito para impedir. É tão falaciosa a proposta política que tenta encobrir o fato das armas terem sido compradas ilegalmente, sendo uma delas até roubada e com registro do roubo.

    • abril 14, 2011 às 2:12

      Pois é, Carlos. Li que um novo plebiscito custará 300 milhões de reais aos cofres públicos. O povo infelizmente não tem noção do quanto custa isso, simplesmente porque não há cidadania. Há o descaso com a coisa pública, um descomprometimento generalizado com o dia de amanhã. Os políticos, por sua vez, são oportunistas, e certamente vão desviar a maior parte dos recursos para seus bolsos. E ficam todos felizes no fim das contas. E o mais grave: querem fazer um novo plebiscito para… ANULAR o resultado que a maioria escolheu em 2005 (o NÃO à restrição às armas e munições). Abraços, Fabrício

  3. Vera Ribeiro
    abril 14, 2011 às 2:43

    Fabrício, concordo apenas em parte com voce. Antes de mais nada, é bom lembrar o momento que foi feito o primeiro plebiscito. A história do mensalão (ou qq coisa parecida) estava nas manchetes e o eleitorado disse “não” como uma forma de protestar contra tudo e contra todos. Aliás, até a classe média brasileira confunde poder executivo com poder legislativo. O “não” se dirigia ao presidente, mas o plebiscito foi provocado pelo legislativo (como agora).
    Eu sou a favor do desarmamento, mas tenho dúvidas se o caminho é esse. Acho que o porte de armas com o argumento da auto defesa é pura balela. Não conheço ninguém (e nunca ouvi falar) que tenha conseguido e usado a tempo uma arma para se defender. Em compensação, os casos de armas usadas para matar inocentes estão nos jornais todos os dias. Bjs, Vera

    • abril 14, 2011 às 3:41

      Vera, importante seu posicionamento e ponto de vista. Contra o desarmamento, no sentido de ninguém ter armas, realmente, acho que somos unânimes. Só que de nada adianta desarmar a sociedade se o tráfico de armas continuar ocorrendo à espreita, e muitas vezes, com autoridades envolvidas (veja o caso dos vereadores e deputados milicianos, aqui no Rio). Enfim, nota-se que o plebiscito que agora querem novamente implantar, não focará mais uma vez o ponto nevrálgico disso tudo: o mercado negro de armas. O que me assusta é ver que, ao mesmo tempo milhares de pessoas se mobilizam no twitter e facebook em prol dessa campanha, mas pouquíssimos são os que questionam os pontos que estamos falando aqui. Fica uma unanimidade meio burra, compreende? Enfim, obrigado pelo seu comentário, discutir idéias e posicionamentos é sempre válido. Abraços!

    • Rubens
      abril 14, 2011 às 13:32

      Vera, voce escreveu que o argumento da auto defesa é pura balela e que nunca conheceu ou ouviu falar de alguem que tenha conseguido usar a tempo uma arma para se defender.

      Pois eu conheco varios casos bem sucedidos, inclusive na minha familia, incluindo o meu pai e eu mesmo (ja impedi invasao a residencia atirando contra quem intencionava invadir). E ja li diversas historias semelhantes nos jornais tambem (moro no Rio), desde o cara que evitou assalto em sinal de transito de Copacabana, apenas por mostrar a arma dele para o assaltante de dentro do carro, ate um casal que matou um pivete que pretendia assalta-los à noite (acho que no Centro) — e depois leu nos jornais que o caso foi tratado pela policia como “morte apos uma briga de pivetes”.

      Teve ate um caso famoso no Flamengo da velhinha aposentada que atirou num vagabundo que ameacou o cachorrinho dela com um caco de vidro, se ela nao lhe entregasse a bolsa (foi elogiada pelo g*vernador e tudo na época, pela coragem).

      Casos de auto-defesa bem sucedidos existem aos montes.

      E’ preciso lembrar que, considerando como sao as leis no Brasil, quem usa a arma e sai-se bem (as vezes ate mesmo matando quem o ameacava), nao sai por aí espalhando isso depois, para nao ser preso (pois infelizmente a Lei é assim).

  4. Leni
    abril 14, 2011 às 10:30

    Se é para fazer campanha de desarmamento, poderia começar desarmando os petralhas e a patota indecente.
    Que tal fazer um plebiscito para saber o que o povo brasileiro acha da saude, do saneamento basico, do transporte publico etc.

    • abril 14, 2011 às 12:51

      Concordo plenamente, Leni. Que tal fazer um plebiscito para saber, por exemplo, se o povo brasileiro quer que os mesmos políticos de sempre permaneçam no poder, né? Abraços, Fabrício

  5. abril 14, 2011 às 14:09

    Concordo com você. O plebiscito já foi realizado. Inês é morta. Seria até inconstitucional a realização de uma consulta da qual já se tem o resultado.
    Ou faríamos como fez o Chavez, repetindo o plebiscito pela reeleição infinita até que fosse respondido a seu favor?
    Abração.

  6. abril 14, 2011 às 21:11

    Nova consulta sobre armas, novo cadastro de armas (já fiz 3 desde que comprei a arma em loja e esperei o DOPS autorizar e registrar), nova mudança de ortografia (que até Portugal foi contra), novo registro de armas e novo desarmamento. Técnicas de encher o saco do povo e desviar a atenção dos reais problemas como corrupção, armas de guerra nas mãos dos bandidos por cumplicidade de militares e agentes da PF (que não cuidam das fronteiras, não desarmam os bandidos que desfilam com armas de grosso calibre pelas vias públicas e não apuram a procedência das armas de guerra), fome, fator previdenciário, etc., etc.
    O governo incompetente e conivente com o crime, já desarmou primeiro os coitados dos motoristas de caminhão “facilitando descaradamente os ladrões de cargas a roubarem e assassinarem de motoristas”, depois os sitiantes que vivem em locais ermos plantando e criando foram também desarmados. Finalmente chegou às residências dos cidadãos comuns e honrados e lhes tiraram as armas rudimentares (revólveres de faroeste) que poderiam servir apenas para uma tentativa de defender o patrimônio e as vidas dos familiares no caso de uma invasão.
    Enquanto isto, proliferaram armas em redutos do tráfico e do crime dito organizado como PCC e COMANDO VERMELHO. Ficaram comuns as informações e vídeos de artilharia antiaérea (que derrubou helicópteros da polícia) e adolescentes com armas das forças armadas desfilando rotineiramente pelas mesmas calçadas.
    Várias vezes a polícia travou guerras contra alguns redutos de bandidos, sem êxito. Lembro-me do então governador Mário Covas convocar a imprensa para filmar e o povo assistir a retomada de um “posto” do COMANDO VERMELHO em São Paulo. O governador estava presente com expressiva força policial, que começou a se aproximar do alvo.
    Alguns tiros foram disparados e então – depois de ouvir o comandante – o governador comunicou que iriam “recuar para não colocar em risco os cidadãos que moravam no local”.

    Tirar armas do tempo do faroeste (1800) de pacatos cidadãos é fácil e conveniente para os bandidos.
    Bons tempos em que todos cidadãos de bem possuíam uma destas armas e se uniam quando seu bairro era alvo de bandidos… Eu vivi esta época.
    Por que os “machos” do Senado, da Presidência, polícia e judiciário, não desarmam os bandidos que ostentam armas ilegais e de guerra em plena via pública? Por que NUNCA vão tomar o morro da Rocinha e outra centena de morros não ocupados? Por que nunca vão apurar a responsabilidade e forma dos desvios das armas?
    Já está claro que sendo armas de uso das forças armadas, contrabandeadas e desviadas de quartéis, depois de compradas com dinheiro do povo, os responsáveis são as Forças Armadas e a Polícia Federal, que deveriam cuidar de suas armas enquanto vigiar as fronteiras e impedir o contrabando. Mas, não há nem investigação, nenhuma apuração…!
    As populações continuarão sendo submetidas aos bandidos? Ótima fábrica de bandidos, provavelmente a única opção para os habitantes dos morros, mas não só morros.
    Subiram o morro do Alemão e “convidaram” gentilmente os bandidos a se mudarem.
    Hoje, muitos estão aqui na Baixada Santista. Como novidade, tivemos – só nesta semana – carros passando e atirando em policiais, atirando em pessoas comuns em vários bairros, assaltos com mortes.
    Cidadãos, a solução não está em retirar armas que pela antiga lei ficam obrigatoriamente na residência do proprietário. Mas sim na exigência de moralidade e cumprimento do dever pelas forças armadas e Polícia Federal.
    O que o bandido mais quer é desarmar o cidadão: É a sua primeira iniciativa em um assalto.
    Sempre passa pelo risco do cidadão honesto atirar primeiro, embora sob a mira do bandido.
    Deve ter apelado para o congresso para que o cidadão fique desarmado mesmo em casa, pois o trabalho da noite na casa de outro é arriscado, estressante. Deve ter conseguido, afinal o sindicato é o mesmo.
    O trabalho diurno em lojas então está prosperando de vento em popa. De vez em quando um estupro no grito (antes muitas mulheres tinham porte de arma ou pelo menos uma arma de choque) para aliviar a tensão.
    Em nenhum país as forças armadas são suficientes para garantir a vitória sob um ataque externo ou mesmo interno.
    Então a população é treinada e armada para eventualidades. Em quase todos países, o exército efetivo é mínimo.
    Mesmo nos EUA a compra de armas é livre. Pode-se comprar um tanque de guerra sem burocracia, mas usar armas contra a população é punida com rigor.
    Louvável da parte do Bolsonaro ir contra o desarmamento, logo ele que se diz favorável à ditadura, que seria implantada mais facilmente do que em 1964, com todos os cidadãos rezando.

    Atenciosamente,

    Fernando Pegorer
    eng.pegorer@gmail.com

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