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O bafômetro e a politização do fato


Na madrugada do último domingo (17/04), Aécio Neves, senador da República, foi parado numa blitz de operações Lei Seca, no abastado bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Na ocasião, foi constatado que sua habilitação para dirigir estava vencida. Convidado a fazer o teste do bafômetro, cujo objetivo é verificar se o motorista está conduzindo seu veículo com níveis de álcool incompatíveis com a direção responsável, o senador se recusou a fazer o teste, com base no direito que lhe era cabível naquele momento, já que a lei informa que “nenhuma pessoa é obrigada a produzir provas contra si mesma”. Aécio entregou seu veículo a outro condutor que estava próximo, naquele momento e irá pagar uma multa de mais de mil reais por estar dirigindo com habilitação vencida. E também terá anotado sete pontos em sua carteira de motorista.

O parágrafo descrito acima foi feito com base na versão oficial, apresentada pela assessoria de imprensa do senador. Até aí, nenhum problema, já que é a palavra de uma das partes que estiveram envolvidas no episódio. A outra parte, o fiscal da Lei Seca, não se manifestou. E a imprensa noticiou a mesma coisa.

Entretanto, o que era apenas para ser um fato ocorrido com um político, se transformou imediatamente em munição para que desafetos – sejam do mesmo partido ou de partidos opositores ao senador – aproveitassem para reverberar por vários dias, o acontecimento como forma negativa – e o que é pior: tecendo críticas e comentários com base em supostas evidências (supostas!), sem ter base legal alguma, como provas, de que o senador estivesse dirigindo alcoolizado. Chegaram até a levantar a possibilidade de drogas, vejam só.

Muito bem. O motivo deste post não é para defender o senador Aécio Neves. Nunca votei nele, voto no Rio de Janeiro. Tampouco conheço de perto suas realizações como governador de Minas. E muito menos sei de suas propostas como senador. Mas o que me chamou a atenção, no episódio ocorrido, é um fenômeno que vem acontecendo no Brasil: na constatação da esterilização política (colocada em curso pelo governo anterior), a moda agora é fazer da futrica, da fofoca alheia, o assunto do momento. Politiza-se o fato, mesmo, como escrito acima, sem comprovação. E até mesmo se ouvesse, porque o assunto deveria frequentar as páginas dos principais periódicos, sites e ser toda hora falado nos telejornais?

Poderia ser qualquer pessoa, independente de partido político ou orientação ideológica. O que preocupa é justamente a opção por dar exacerbada atenção ao fato em detrimento de um amplo debate político em torno de idéias e propostas que podem, de fato, agregar à nação.

OK, muitos poderão dizer que o senador é uma figura pública e que por isso mesmo, tem que ser noticiado. Até aí nenhum problema. Acontece que o episódio ocorreu na madrugada de domingo, fora de seu expediente de trabalho e não em Brasília, mas no Rio. Que a imprensa noticie o fato, não está errada. Mas a preocupação é a exploração do episódio – sabe-se lá para servir a quais interesses. A manutenção do assunto no noticiário diário do país, embora num primeiro momento traga a sensação de que vivemos numa democracia e que é mais do que certo o papel da imprensa “chegar junto” a uma autoridade, satisfazendo egos pessoais – principalmente daqueles contrários à figura de Aécio, seja em disputas anteriores a cargos eletivos ou a uma possível disputa presidencial em 2014 -, quando pensada a longo prazo é pra lá de preocupante. Primeiro porque confirma a esterilização política, onde não há mais oposição e por conseguinte, os debates propositais tornam-se rarefeitos, e segundo porque traz consigo o diagnóstico de uma “futilização” de temas. E quanto a futilização corre em benefício de terceiros, é pior ainda.

Se o senador transgrediu a lei, dirigindo com habilitação vencida, terá que arcar com as despesas financeiras. Perderá também pontos na carteira. Quanto ao teste do bafômetro, ao se recusar a fazê-lo, embora não devêsse, não transgrediu a lei. Acusá-lo de bêbado é demasiado precoce – sou adepto da idéia de que, até uma pessoa mostrar o erro ou o mesmo ser constatado, ela é inocente. Mas a mim, como cidadão, não estou interessado em saber que um senador foi pego numa blitz de madrugada. Isso é estória da Candinha ou de revistas de fofocas.

Como cidadão, estou interessado em propostas políticas, idéias, sugestões e debates.

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  1. Daniel Matos
    abril 22, 2011 às 5:24

    Acho que esse tipo de atitude por parte da imprensa e da opinião pública em relação a pessoas públicas e, principalmente, políticos, ocorre há muito tempo. Não creio que isso seja filosofia de governo anterior não. Isso está no “sangue” do povo brasileiro mesmo. A total descrença e descrédito em relação a políticos, sejam eles de que partido forem.

    • abril 22, 2011 às 16:35

      Sim, mas repare que desde que o PT era oposição, fazia sistematicamente críticas às pessoas, aos governos. E mesmo estando agora no governo, continua com o mesmo comportamento com adversários políticos. Lula quando foi presidente, não saía do palanque. Falou em herança maldita mesmo após 8 anos de governo.. abraços.

  2. Ermindo C. Jr.
    abril 22, 2011 às 16:30

    Não concordo!
    Diz a sabedoria popular que pelo dedo se conhece o gigante. Ora se não pudermos conhecer as fofocas, os mexericos da Candinha, enfim, o dedo do gigante, como o conheceremos?
    Pelas suas propostas políticas, pelos seus discursos feitos no ambiente controlado da Câmara? Mas será que eles são verdadeiros, ou apenas para enganar os trouxas, nós, os eleitores?
    Só para exemplificar: você acreditaria num senador que tenha combatido pela aprovação da Lei Seca e que na primeira oportunidade de sentir o seu peso, dela escapa usandode artifícios legais e/ou de sua imunidade parlamentar.
    Eu não acredito!

    • abril 22, 2011 às 16:34

      Oi Ermindo, acho que o fato deve ser sim noticiado, porém me causa incômodo ver tanta mobilização em torno do assunto, por vários dias. É como se o país parasse para discutir isso. Acho que se noticia o fato, ok, ponto. E que o debate político seja mais frutífero, com governoe oposição debatendo propostas, apresentando idéias. A crítica pelos acontecimentos (como o do episódio do bafômeto) acho rasa, acho que o país teria mais a ganhar com discussões. Abraço.

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