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Resenha: “1822”


Assim como o ano de 1822 representou, para alguns, um divisor de águas para os destinos do Brasil, para outros, até hoje, é sinal de desimportância – já que mesmo “independente” de Portugal, o Brasil continuava governado por um soberano português e, mais do que isso, atrelava-se, com volúpia ainda maior, à dependência econômica da Inglaterra. É portanto, tema capaz de despertar polêmica não somente entre pesquisadores que, dependendo da linha política, ganha tons nebulosos.O mesmo pode-se dizer desta obra “1822 – Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D.Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado”, do jornalista Laurentino Gomes. O autor é o mesmo de outra publicação voltada para a História do Brasil. “1808” já tinha sido estrondoso sucesso e agora, ao repetir a dose acerca de uma data tão significativa para nossa história, Laurentino Gomes reforça sua intenção de contar a história de forma sutil, fácil e dinâmica aos olhos do leitor. O mais interessante é que no meio historiográfico, a discussão gira mais em torno da publicação da obra, em si, do que propriamente no conteúdo explorado pelo autor. Se “1808” já havia despertado reações de rejeição pelo fato da obra trazer a história contada de forma não usual àquela que é contada na Academia, “1822” reforça a tese de que, para grande parte dos historiadores, resume-se a uma literatura factual, rasa e superficial à história clássica, que se aprofunda e desperta questionamentos e novas pesquisas na sociedade.

Geralmente trata-se de uma visão marxista da história, que não cabe a nós julgar. E torna-se perceptível aquilo que Pierre Bourdieu chamou de “conceito de habitus“:  uma matriz geradora de comportamentos, visões de mundo e sistemas de classificação da realidade, que acaba sendo incorporada aos indivíduos, classificando e organizando nossos hábitos. A representação de uma literatura que é incorporada de forma nociva e desmerecedora da História, na visão daqueles.
Mas o que é mais interessante nessa nova onda de publicações sobre História é que chama a atenção para um novo comportamento: a democratização da História. Laurentino Gomes faz História Política – ao seu modo, jornalisticamente falando, mas faz. E, coincidencia ou não, uma História Política que em grande parte do século XX padeceu no obscurantismo, renegada principalmente a partir dos anos 30 e 40, numa historiografia predominentemente francesa comandada por Marc Bloch e Lucien Febvre (que inauguraram a Escola dos Annales), passando por economistas como Ernest Labrousse, marxistas como Pierre Villar, ou no fundamento de la longue dureé das estruturas de Fernand Braudel. E que também sofreu um novo golpe quando, em 1948, foi criada a VI Seção da École Pratique des Hautes Études, pelo mesmo Lucien Febvre. A hegemonia da História Política dava lugar à ascensão da História dita “total”, de longa duração, de estruturas movediças, onde os comportamentos coletivos tinham mais importancia do que as individualidades. Ou seja: o importante não era mais a “espuma da onda” e sim a onda, em sua totalidade, as profundezas de um oceano inexplorado pelos historiadores.
Por ser confundida com a História das Biografias, dos grandes reis e estadistas, presa na linha do tempo. Uma historia que os franceses confundiram com a histoire événementielle ou historie bataille. Nos anos 60, com a aproximação dessa linha de pensamento com o marxismo que ganhava força na França, a História Política, até mesmo como forma de protesto contra o Estado instituído, passou a ser mais rechaçada ainda nos meios acadêmicos. Somente nos idos dos anos 80 começou a ser reabilitada por historiadores como Reneé Remond, que inclusive soube bem expressar o sentimento pelo qual passava a História Política:
“A realidade social é mais rica, mais variada, complexa, do que se propõem todos os sistemas de explicação”.
Fatores exógenos como a reabilitação do papel do Estado como interventor nas economias – principalmente após o insucesso de algumas economias liberais, nos anos 80, aliados a uma repaginação da propria História Política, somada à pluridisciplinaridade envolvendo esta a outros campos das ciências (ciência política, sociologia, antropologia, linguística etc), fez com que uma renovada História Política surgisse.
Justamente a falta de rigor no aprofundamento de questões, bem como a excessiva preocupação com narrativas lineares, com a biografia de grandes estadistas e o incômodo causado com a perspectiva da utilização de fontes superficiais, apontadas no decorrer do século XX, podem ser também apontadas, para grande parte dos historiadores marxistas e ainda atrelados à História Social e Econômica, ao tipo de literatura que Laurentino Gomes torna a produzir.
O livro reabilita personagens históricos como D.Pedro I, José Bonifácio, a imperatriz Leopoldina, Marquesa de Santos e uma personagem até hoje desconhecida para grande parte dos brasileiros: o escocês Lord Cochrane, almirante da Coroa Britânica que posteriormente virou mestre dos mares, mercenário e corsário – ate hoje odiado no Maranhão por ter saqueado São Luís. Não reabilita no sentido extenso da palavra, mas sim joga novas luzes sobre essas personagens, trazendo-as para perto do leitor. Num efeito de comparação, é interessante perceber o tratamento dado a D.Pedro I na produção cinematográfica “Independência ou Morte” (1972) – auge do período militar no Brasil – mostrando um D.Pedro I sisudo, interpretado pelo ator Tarcísio Meira; e o D.Pedro I mulherengo, farrista (e fanfarrão), da minissérie global “O quinto dos infernos”, já nos primeiros anos do século XXI.
A personagem de D.Pedro é retratada de forma simples, porém mais humanizada – acompanhando recentes trabalhos sobre o imperador, como “D.Pedro I, herói sem nenhum caráter”, de Isabel Lustosa, por exemplo. E reafirma também o resgate de José Bonifácio que, fugindo de uma visão reducionista da história, como “Patrono da Independencia”, era inteligente e estrategista, indo beber na fonte da Revolução Francesa no período em que esteve estudando Mineralogia na Europa. A imperatriz Leopoldina, da linhagem refinada dos Habsburgos austríacos, pode tambem ser considerada a “Matriarca da Independência”, já que partiu dela a carta lida por D. Pedro, em São Paulo, conclamando o então príncipe que fizesse a separação entre Brasil e Portugal.
O que mais se destaca em “1822” é a forma fácil e dinâmica, não fixando apenas no assunto “Independência”, mas, fazendo-se uso de temas periféricos, conseguir levar ao leitor um panorama dos diversos fatores que motivaram o episódio da separação entre Brasil e Portugal. E também o desenrolar dos acontecimentos, com  as revoltas e rebeliões populares no pós-independência. O leitor poderá saber, por exemplo, que para os baianos, o sete de setembro não teve grande importância e que somente a data de dois de julho de 1823, quando as tropas portuguesas foram expulsas de Salvador, corresponde, de fato, a independência do Brasil.
“1822” tem méritos ainda por poder proporcionar a uma vasta parcela da população brasileira, contato com uma cultura que infelizmente ainda passa ao largo de sua realidade. Num país que vota em Tiririca – e se orgulha em participar do “espetáculo das urnas” banalizando dessa forma o voto, mesmo que no final acabe não tendo consciência de que é o próprio palhaço -, talvez “1822” seja o primeiro passo para o resgate de uma volta às origens de nossa história para, quem sabe, saber lidar com o futuro e aprimorar o sentimento de cidadania.
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