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Imortalidade mortífera


A notícia da eleição do jornalista Merval Pereira para ocupar a cadeira de número 31 daAcademia Brasileira de Letras (ABL) – antes pertencente ao escritor Moacir Scliar – é motivo de polêmica no meio acadêmico e partidário, assim como costumam ser as colunas assinadas em O Globo pelo referido jornalista (que também já foi chefe de redação da revista Veja). Sem contar com o fato de que uma eleição sempre que pareça ser unanimidade, na maioria das vezes não é, sempre suscitando críticas e discussões – muitas acaloradas – sobre o resultado final.

A ABL é uma instituição mais do que centenária. Foi fundada em 20 de julho de 1897, tendo como patrono o escritor Machado de Assis. Conta atualmente com 40 membros efetivos e perpétuos, seguindo o modelo da Academia Francesa. Mas não é qualquer um que pode se candidatar: segundo seu estatuto, é preciso ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário. A eleição de Merval Pereira traz à tona um questionamento: quantos livros publicou o jornalista? Segundo consta, Merval publicou em setembro do ano passado, o livro “O Lulismo no Poder”, onde reúne vários artigos publicados por ele em O Globo, de 2003 a 2010, especialmente sobre o ex-presidente Lula e o fenômeno do Lulismo. Fora isso, Merval não publicou nenhum outro livro.

Me sinto à vontade para falar sobre esse tema, já que diariamente leio suas colunas em O Globo e já acompanho seu trabalho como jornalista há pelo menos 15 anos. Fui ao lançamento de seu livro, no ano passado, numa cerimônia realizada na própria ABL (seria esse um indício da eleição que viria depois?) e acho ele uma pessoa inteligente e bem articulada. Sobre concordar ou não com o que ele escreve, aí já é outro papo. Mas acho que para concordar ou discordar de uma idéia é necessário saber sobre essa idéia, ler várias coisas sobre ela e discutir bastante, para depois sim, criticá-la. Infelizmente o mundo está cheio de radicais (extremistas, fundamentalistas, talibãs), seja de esquerda ou de direita, que procura criticar exasperadamente uma idéia quando, na verdade, nem leu sobre ela.

E com isso, sou obrigado a questionar bastante a eleição de Merval Pereira, não pelo conteúdo das idéias desse jornalista, mas sim pelo histórico de sua obra literária, que se resume a apenas um livro. Um jogador de futebol, para ser convocado a defender a seleção de seu país, não pode ser convocado apenas pelo que faz num jogo, mesmo que tenha jogado muito bem, tenha sido o craque da partida e feito vários gols. Convoca-se pelo trabalho que ele desenvolve ao longo de algum período. Numa entrevista de emprego, o currículo de um candidato é avaliado pelos trabalhos desenvolvidos por ele. Então, mesmo achando um Merval um bom jornalista, não concordo com sua eleição e consequentemente, com sua imortalidade.

Mas não foi só a eleição de Merval Pereira que me causou surpresa. Há alguns “imortais”na ABL bastante questionáveis. José Sarney é um deles. Ex-presidente da República, ex-governador do Maranhão, ex-deputado e atual senador, Sarney foi eleito em 1980, quando o Brasil ainda convivia com a ditadura, sendo pertencente ao partido do governo. Segundo consta no site da Academia, publicou várias obras (a maioria poesias), ensaios e discursos. Entretanto, até ser eleito, só havia publicado dois livros: “A canção inicial” (Poesia. São Luís: Afluente, 1952) e Norte das águas (Contos. São Paulo: Martins Editora, 1969. 2.ª ed.). E aí vem o questionamento: sua projeção nacional não se deu pela literatura e sim pela política. E quando a política está em jogo, é inevitável não surgirem dúvidas à respeito. Seu poder político ainda lhe valeram ser membro do Instituto Histórico e Geográfico do… Maranhão, e da Academia… Maranhense de Letras.

O renomado médico e cirurgião Ivo Pitanguy é outro exemplo. Internacionalmente conhecido, foi eleito em 1990 para ocupar a cadeira número 22 na ABL. O site da ABL mostra uma infinidade de publicações e artigos (científicos) de Pitanguy. Lá constam livros como: “Mamoplastias” (Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1976), “Atlas de cirurgia palpebral” (Rio de Janeiro: Colina/Revinter, 1994) e contribuições em obras coletivas como, por exemplo, “Tratamento das Fissuras Lábio-palatinas “(orgs. S. Lessa e S. Carreirão). Rio de Janeiro: Interamericana, 1981. Não seria o caso do Dr. Ivo Pitanguy pertencer apenas a Academia Literária dos Médicos (não sei se essa instituição existe)? Sua “literatura” é bastante especializada, inclusive seus livros são raros e devem custar muito caro, estando distantes financeiramente de 99% da população brasileira.

Ocupante da cadeira número 39, o ex-vice presidente da Republica Marco Maciel foi eleito para a ABL em 2003, logo após deixar o governo de Fernando Henrique Cardoso. Marco Maciel também notabilizou-se por uma carreira que não esteve atrelada às Letras. Segundo o site da Academia, Marco Maciel publicou 8 livros, todos atrelados às Idéias Políticas. Não consta no site, entretanto, quantos livros foram publicados antes de sua posse.

Voltando mais na linha do tempo, temos o exemplo do jornalista Assis Chateaubriand, quese tornou magnata das comunicações no Brasil, entre os anos 1920 e 1960, e ocupou a cadeira número 37, sendo eleito em 1954, após o suicídio de Getulio Vargas (outro imortal da ABL, eleito em 1941, durante o Estado Novo, e tendo publicado apenas uma obra “A Nova Política do Brasil – discursos reunidos”, não sabemos se publicado antes de sua posse) – lembrando que sua eleição se deu no auge de seu poder de influência na mídia brasileira. Vamos às obras literárias publicadas por “Chatô”? Segundo o site da Academia, “a maior parte da obra do diretor dos Diários Associados, encontra-se dispersa em seus artigos para a imprensa. Em livros contribuiu com os seguintes trabalhos: Em defesa de Oliveira Lima; Terra desumana; Um professor de energia – Pedro Lessa e Alemanha (impressões de viagem)”. E ponto final.

Há diversos outros exemplos bastante questionáveis de imortalidades literarias, que se eu fosse escrever aqui, ficaria 100 anos analisando suas biografias e bibliografias. Mas é realmente surpreendente que “escritores” como esses supracitados estejam no mesmo rol de Nélida Piñon, do embaixador, diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva, do cientista político e historiador José Murilo de Carvalho, de Ariano Suassuna, de João Ubaldo Ribeiro – só para lembrar dos atuais imortais, ainda vivos e ocupantes de cadeiras na Academia, porque se fôssemos comparar com os imortais do passado, aí seria complicado.

Fica então a dúvida: já não se fazem mais imortais como antigamente ou a política se sobrepõe sobre o rigor acadêmico? Ou as duas coisas juntas?

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Categorias:Uncategorized
  1. Daniel Matos
    junho 3, 2011 às 18:23

    Bom texto. Já tinha percebido como q a ABL já deturpou ha muito tempo o critério para imortalizar alguém. Creio que a resposta pra sua pergunta seja a segunda opção.

  2. Luiz Fernando
    junho 3, 2011 às 20:20

    Fabricio
    Excelente observaçoes retrospectivas
    Esta é a nossa Academia Brasileira de Letra, imagine se não fosse.
    Continua assim
    saudações historicas .

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