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Até que a morte os separe


Assisti “Blue Valentine” (que no Brasil atende pelo duvidoso título traduzido “Namorados para sempre”) e confesso que saí da sala de cinema numa espécie de mal-estar, pelas diversas verdades inconvenientes que o filme expõe, com crueza, como se de repente mergulhássemos nas entranhas de um corpo e vislumbrássemos a realidade despida da fantasia que a fase inicial de qualquer relacionamento é capaz de camuflar. Um excelente doloroso filme, “Blue Valentine”, do diretor Derek Cianfrance, fala sobre a natureza e os desdobramentos do amor, no relacionamento do casal Cindy e Dean, interpretados pelos ótimos Michelle Williams e Ryan Gosling, respectivamente – ambos indicados aos prêmios de melhor atriz e ator no Globo de Ouro, e ela indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Mas um alerta: se você está namorando ou é recém-casado, não vá assistir, sob a pena de sair do cinema mudo e não saber o que discutir com seu/sua namorado(a), noivo(a) ou marido/esposa.

O filme é uma Cinderela às avessas: mostra como um relacionamento é capaz de ir se deteriorando à medida do tempo, junto de tantas incertezas, egoísmos e confusões que só nós, seres humanos, somos capazes de nutrir, impressionantemente enquanto “amamos” alguém. Talvez a passagem mais incisiva do filme esteja no ácido e direto diálogo entre Cindy e sua avó:

Cindy: “Como a gente fica quando se apaixona?”

Avó: “Querida, acho que nunca descobri.”

Cindy: “Nem com o vovô?”

Avó: “Talvez no início”.

O mais interessante é que nesse diálogo temos o embate entre a tradição e a modernidade,mas inversamente aos clichês que percebemos nos diálogos contemporâneos. Frequentemente somos apresentados a diálogos de saudosismos, principalmente vindos dos mais antigos, que não se cansam de dizer “Ah, no meu tempo as coisas eram melhores”, ou “Hoje em dia não existe mais romantismo”. Quem nunca não se deparou com esses diálogos, vindos certamente por gente mais idosa? Só que no caso de “Blue Valentine”, a tradição é representada por Cindy, de início uma pessoa sonhadora, e a avó, a modernidade devastadora de esperanças, metáfora do tempo que ainda está por vir, da desvalorização de sentimentos em detrimento da busca por um status quo – “Buscamos alguém com um bom emprego”, fulmina a avó, no fim do diálogo. Que futuro podemos então esperar quando alguém que imaginávamos ter uma palavra de consolo e alento – a avó – é tão pessimista quanto ao futuro? Reside então neste diálogo o ponto nevrálgico que irá permear todo o filme, causando, a todo instante, durante a sua exibição, mal-estar, incômodo, desilusão… Talvez porque somos educados diante da cultura que exalta o “final feliz” para todas as histórias, onde existem príncipes encantados e donzelas sonhadoras.

A personagem de Dean, por outro lado, é ambígua. Se por um lado foge do estereótipo do homem másculo, que valoriza os bíceps e desdenha do sentimento bruto, por outro apresenta-se mais fraco perante Cindy. Dean é justamente o contrario do macho man: apresenta-se como romântico, valoriza ideais, é o príncipe encantado sob a forma de sapo – não completou o colegial, trabalha inicialmente numa empresa de mudanças e depois de casado continua pintando paredes. Mas… de que adianta sentimentos num mundo globalizado? Ambas as personagens – Cindy e Dean – desde o início são pedras brutas, que precisam ser lapidadas. Mas o que ocorre é a dilapidação de seus caráteres e a consequência é o sentimento de anti-romance que o filme faz cada espectador sentir na pele – seja por já ter vivido isso ou por temer que um dia possa viver uma experiência do tipo.

A deterioração das personagens causa incômodo e mal- estar em quem assiste. E traduz uma mensagem de alto teor pessimista, possivelmente confirmando a tese do sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, de que vivemos numa sociedade individualizada, cada um pensando nos próprios problemas, estimulados pela sociedade. No início de todo relacionamento, a felicidade plena, a romanticidade levada ao extremo, quando tudo pode ocorrer em volta, que vivemos em função do Outro. À medida que o tempo passa, a corrosão, que acarreta sofrimento e angústia. Mas não há mocinhos ou vilões nesse contexto: o filme é um desenrolar de acontecimentos fidedignos ao que ocorre na realidade.

Na alegria e na tristeza, até que a morte os separe, as biografias de cada um de nós – que a antropologia prefere chamar de “trajetórias” – é apenas um grão no infinito, diante dos dilemas do mundo moderno, onde os relacionamentos se tornam descartáveis e são apresentados desnudados a todos nós, como em “Blue Valentine”.

Trailer do filme:

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