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Paris é uma festa


“Paris é uma festa”…

Quem escreveu a frase acima foi Ernest Hemingway, escritor estadunidense. Uma frase que marcou sua geração e que é a tônica de “Midnight in Paris” (“Meia-noite em Paris”), novo filme de Woody Allen que estreou esta semana nos cinemas brasileiros e este que vos escreve assistiu na tarde de hoje. No filme, Gil (Owen Wilson) e Inez (Rachel McAdams) vão passar uns dias de férias em Paris, junto dos pais dela. Gil é um roteirista de filmes que resolve escrever livros e está em seu primeiro romance. Na capital francesa, busca encontrar inspiração para sua obra e a todo momento expressa sua vontade de sair dos EUA e se mudar para Paris. Já Rachel tem outros objetivos na cidade: turismo e compras, junto de dois amigos que acaba encontrando. Gil acaba então, certa noite encontrando ninguém menos que alguns artistas, escritores e intelectuais que recorreram a Paris para ter a fonte de suas inspirações, entre eles: Scott e Zelda Fitzgerald, Cole Porter, Pablo Picasso, Salvador Dali, Paul Gauguin, Degas, T.S. Eliot, Henri Matisse, Henri de Toulouse-Lautrec, Luís Buñel, entre outros. Woody Allen que durante anos teve Nova York como cenário de seus filmes, realizou também filmes em Londres, teve uma recente passagem por Barcelona (“Vicky Cristina Barcelona“) e finalmente chegou a Paris para rodar este filme, que teve todas as cenas filmadas na capital da França.

A personagem de Gil nada mais é do que o próprio Woody Allen caracterizado, seja por suas atitudes, pelas reticências nas falas e… a admiração pelos anos 1920, principalmente da Paris dos anos 1920, chuvosa e com os ares de outrora. Em certa altura do filme, uma das personagens diz: “Nostalgia é negação”. De fato. Sentimos saudades de algo que hoje nos falta, daquilo que serve como referência para o que hoje não existe mais. E Gil – ou Woody Allen, como preferir – é nostálgico de um tempo que não mais existe, em contraponto com sua noiva Inez, que além da falta de sensibilidade intelectual, representa o mundo pasteurizado dos dias atuais. E essa dualidade entre tradição (Gil, Paris anos 1920) versus modernidade (Inez, Paris, 2010 – quando se passa o filme) é apresentada em todos os momentos ao espectador. Os artistas e intelectuais são representações do passado, e mais do que isso, ídolos do próprio Woody Allen, que aproveita o filme para homenageá-los.

Além de Gil retornar à Paris de 1920 – chuvosa, com iluminação e fotografia envelhecida e ambiente retrôpropositalmente usados pelo diretor -, retorna também a 1890, com uma outra geração de excelentes virtuoses que viveram na capital francesa. E o mais interessante é que a partir daí se faz o questionamento: “Afinal, qual teria sido a verdadeira Golden Age de Paris?”. Para Gil/Woody Allen, seria os anos 1920. Mas para Adriana (outra personagem do passado, interpretada por Marion Cotillard), a verdadeira Golden Age teria acontecido em 1890. Na grande maioria das vezes, o anacronismo não deixa que nos perguntemos “quais seriam os ídolos de nossos ídolos?”.  Sempre à meia-noite, Gil se encontra com seus ídolos de outrora. A escolha do horário é mero acaso? Não creio. Meia-noite é a hora que Cinderela corre, para sua carruagem não virar abóbora. Mas o que ocorre neste filme é o contrário: justamente à meia-noite é que começa o sonho do protagonista. Woody Allen mexe muito bem com isso, com o paradoxo entre sonho e realidade, às avessas.

Numa das cenas do filme, Gil está num bar dos anos 1920 conversando com Ernest Hemingway, conversando sobre o livro que está por lançar. Hemingway então diz que gostaria de ler o livro antes dele ser publicado. Gil pede então para ir ao hotel onde está hospedado, para pegar os textos, e que o escritor estadunidense espere por ele. Sai do bar e no meio do caminho lembra que precisa combinar com Hemingway alguma coisa. Ao retornar ao bar, se decepciona: lá não está mais o bar e sim… uma lavanderia do século XXI, com as várias máquinas de lavar em série, numa iluminação fria, sem vida. Temos nessa cena, o mais vigoroso sentimento de crítica ao pós-modernismo, à cultura de massa, à pasteurização do fato.

Paris tem a tradição de ser habitat da intelectualidade, seja através de seus escritores, sua música, seus pintores… e é interessante ver que é cenário das sucessivas contradições que acontecem a todo momento durante o filme: a luta entre “o que deveria ser” contra “o que realmente é“.

No fundo, se Gil deseja morar em Paris, a Paris idealizada por Woody Allen é homenageada, junto de suas virtuoses que marcaram época naquela cidade. E é também a cidade que recebe um diretor peregrino, quem sabe, para que lá ele possa de fato, viver em paz. Se as idéias inseridas no contexto podem soar como repetição, isso pouco importa.

Afinal, a Paris nostálgica que Woody Allen nos brinda, ao som de Cole Porter, jazz e can-can, é realmente uma festa.

Trailer oficial do filme:

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Categorias:Uncategorized
  1. Gustavo Inúbia
    junho 26, 2011 às 22:22

    Uma delícia de filme.

  2. junho 26, 2011 às 22:27

    Verdade, Gustavo. O filme é muito bom – trilha sonora, fotografia, roteiro, atores..

    Abraços,

    FG

  3. julho 12, 2011 às 23:57

    Acabo de ver. Alguém me acorde deste encantamento. Ou melhor, NÃO ME ACORDEM! rs

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