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Por que os brasileiros não reagem?


Excelente artigo de Juan Arias, correspondente do jornal espanhol El País, de Madri, no Brasil. Resolvi copiá-lo aqui no Blog. Cada brasileiro devia ler esse artigo todos os dias. Concordo com todas as palavras escritas.

Por que os brasileiros não reagem?

Autor: Juan Arias

O Globo – 11/07/2011

O fato de que em apenas seis meses de governo a presidente Dilma Rousseff tenha tido que afastar dois ministros importantes, herdados do gabinete de seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva (o da Casa Civil da Presidência, Antonio Palocci – uma espécie de primeiro-ministro – e o dos Transportes, Alfredo Nascimento), ambos caídos sob os escombros da corrupção política, tem feito sociólogos se perguntarem por que neste país, onde a impunidade dos políticos corruptos chegou a criar uma verdadeira cultura de que “todos são ladrões” e que “ninguém vai para a prisão”, não existe o fenômeno, hoje em moda no mundo, do movimento dos indignados.

Será que os brasileiros não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética de muitos dos que os governam? Não lhes importa que tantos políticos que os representam no governo, no Congresso, nos estados ou nos municípios sejam descarados salteadores do erário público? É o que se perguntam não poucos analistas e blogueiros políticos.

Nem sequer os jovens, trabalhadores ou estudantes, manifestaram até agora a mínima reação ante a corrupção daqueles que os governam.

Curiosamente, a mais irritada diante do saque às arcas do Estado parece ser a presidente Rousseff, que tem mostrado publicamente seu desgosto pelo “descontrole” atual em áreas do seu governo e tirou literalmente – diz-se que a purga ainda não acabou – dois ministros-chave, com o agravante de que eram herdados do seu antecessor, o popular ex-presidente Lula, que teria pedido que os mantivesse no seu governo.

A imprensa brasileira sugere que Rousseff começou – e o preço que terá que pagar será elevado – a se desfazer de uma certa “herança maldita” de hábitos de corrupção que vêm do passado. E as pessoas das ruas, por que não fazem eco ressuscitando também aqui o movimento dos indignados? Por que não se mobilizam as redes sociais?

O Brasil, que, motivado pela chamada marcha das Diretas Já (uma campanha política levada a cabo durante os anos 1984 e 1985, na qual se reivindicava o direito de eleger o presidente do país pelo voto direto), se lançou nas ruas contra a ditadura militar para pedir eleições, símbolo da democracia, e também o fez para obrigar o ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) a deixar a Presidência da República, por causa das acusações de corrupção que pesavam sobre ele, hoje está mudo ante a corrupção.

As únicas causas capazes de levar às ruas até dois milhões de pessoas são a dos homossexuais, a dos seguidores das igrejas evangélicas na celebração a Jesus e a dos que pedem a liberalização da maconha.

Será que os jovens, especialmente, não têm motivos para exigir um Brasil não só mais rico a cada dia ou, pelo menos, menos pobre, mais desenvolvido, com maior força internacional, mas também um Brasil menos corrupto em suas esferas políticas, mais justo, menos desigual, onde um vereador não ganhe até dez vezes mais que um professor e um deputado cem vezes mais, ou onde um cidadão comum depois de 30 anos de trabalho se aposente com 650 reais (300 euros) e um funcionário público com até 30 mil reais (13 mil euros).

O Brasil será em breve a sexta potência econômica do mundo, mas segue atrás na desigualdade social, na defesa dos direitos humanos, onde a mulher ainda não tem o direito de abortar, o desemprego das pessoas de cor é de até 20%, frente a 6% dos brancos, e a polícia é uma das que mais matam no mundo.

Há quem atribua a apatia dos jovens em ser protagonistas de uma renovação ética no país ao fato de que uma propaganda bem articulada os teria convencido de que o Brasil é hoje invejado por meio mundo, e o é em outros aspectos. E que a retirada da pobreza de 30 milhões de cidadãos lhes teria feito acreditar que tudo vai bem, sem entender que um cidadão de classe média europeia equivale ainda hoje a um brasileiro rico.

Outros atribuem o fato à tese de que os brasileiros são gente pacífica, pouco dada aos protestos, que gostam de viver felizes com o muito ou o pouco que têm e que trabalham para viver em vez de viver para trabalhar.

Tudo isso também é certo, mas não explica que num mundo globalizado – onde hoje se conhece instantaneamente tudo o que ocorre no planeta, começando pelos movimentos de protesto de milhões de jovens que pedem democracia ou a acusam de estar degenerada – os brasileiros não lutem para que o país, além de enriquecer, seja também mais justo, menos corrupto, mais igualitário e menos violento em todos os níveis.

Este Brasil, com o qual os honestos sonham deixar como herança a seus filhos e que – também é certo – é ainda um país onde sua gente não perdeu o gosto de desfrutar o que possui, seria um lugar ainda melhor se surgisse um movimento de indignados capaz de limpá-lo das escórias de corrupção que abraçam hoje todas as esferas do poder.

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  1. Rubens
    julho 11, 2011 às 10:29

    Pra mim é tudo muito simples de explicar: os movimentos e associacoes de esquerda que antes organizaram e incentivaram o comparecimentos em protestos como os da “Marcha pelas Diretas Já” e “Fora Collor” (PT, PCB, UNE, CUT, MST e outros) sao exatamente os mesmos movimentos que hoje ou estao no poder (como boa parte dos sindicalistas daquela epoca) ou recebem dinheiro diretamente do g*verno do PT.

    Esses movimentos nao têm o menor interesse em se postarem contra eles mesmos e seus interesses. Quem teria que organizar e estimular as marchas de protesto teriam que ser outras organizacoes de oposicao. So que a atual oposicao organizada, nao existe no Brasil, e os poucos que existem sao timidos ou, quando nada, nao sao dados ao protesto de rua (esse tipo de coisa é mais do pessoal de esquerda mesmo, de estudantes, de sindicalistas… e hoje todos esses estao cooptados pelo g*verno).

    Enfim, e em resumo, “corrupcao ruim é a dos outros”. Corrupcao no “nosso” g*verno (na verdade deles, porque meu nao é) nao conta.

    • julho 11, 2011 às 11:15

      Você está certíssimo, Rubens. O tal movimento dos “cara-pintadas”, que ganhou as ruas na época do impeachment de Collor, foi, no fundo, organizado pelos partidos de esquerda na época, somados a uma parcela de estudantes que achava o máximo ir pras ruas se pintar e não ter aula. Muitos foram também manipulados, afinal, era moda se pintar, vestir preto e ir às ruas criticar o ex-presidente. Hoje eu acho que a tal juventude que o jornalista se refere, está mais preocupada com outras coisas do que com política, seja porque: 1) não lê jornal, não lê livros e se interessa por Playstation, redes sociais e outras coisas; 2) os que lêem (poucos) estão desinteressados e descrentes com os rumos do país – e acham que a opinião deles pouco vai valer alguma coisa; 3) não era nascida em 1994 e não viu o que foi o Plano Real e o que ele acarretou ao país, e por conseguinte, se deixou levar pela propaganda do “nunca antes neste país”, achando que o Brasil foi, de fato, “inventado” em 2003. Por outro lado, há aqueles “anestesiados” com as bolsas (família, alimentação etc), que estão pouco se lixando para política e pra esse pessoal, o que interessa é comida na geladeira, tijolo pra laje (prometida pelo político do bairro) e o crédito fácil que lhe permita comprar câmera digital em 36x.

      A oposição é estéril, por causa do tal “presidencialismo de coalizão” (que atrai vários partidos para o governo, em troca de cargos, verbas etc) e também porque os próprios partidos de oposição estão incluídos das barganhas. O sistema político brasileiro é viciado e nunca sairá dessa rotina enquanto não for feita uma ampla e irrestrita reforma política. O problema é que quem faz a reforma são os próprios lobos que tomam conta do galinheiro… rs.

      Abs.

      FG

    • Antoine
      julho 11, 2011 às 16:18

      Muito bem colocado, Rubens! Quem tem capacidade de mobilização (centrais sindicais, estudantes, partidos de esquerda, etc) não tem interesse em ir para as ruas, pois esses agentes foram cooptados pelo governo mediante repasse de verbas ou inserção de seus membros na máquina pública. O povo também foi comprado com o bolsa família. O resultado é uma sociedade anestesiada.

      • julho 11, 2011 às 17:07

        Sim, Antoine. E essa sociedade anestesiada está pouco se importando com “POLÍTICA”: partidos políticos preocupados com cargos/verbas, e população anestesiada com bolsas. O resultado é que o “fazer política” ficou estéril e o povo perdeu a capacidade de lutar por direitos. O que acaba interessando é o “Hoje” e não o futuro.

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