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“Melancolia”, de Lars Von Trier: drama humano sob a perspectiva do cosmos


Assisti no último sábado (20/08/2011) o polêmico e elogiado “Melancolia” (Dinamarca / Suécia / França / Alemanha , 2011 – 136 minutos – Drama / Ficção científica) , novo filme do diretor dinamarquês Lars Von Trier (“Dogville”, “Manderlay”). O filme é dividido em duas partes – “Parte 1: Justine “e “Parte 2: Claire”, que dariam, cada uma, material para produzir dois filmes – distintos e complementares, ao mesmo tempo. Vou explicar o porque mais à frente. Justine (Kirsten Dunst – premiada em Cannes este ano como Melhor Atriz justamente por sua atuação neste filme) e Claire (Charlotte Gainsbourg) são duas irmãs. A primeira vai se casar, é organizada e planejada uma festa de casamento caríssima, na casa de sua irmã Claire. Festa que conta com enormes gastos, segundo seu cunhado astrônomo John (Kiefer Sutherland – o Jack Bauer de “24 Horas”). A festa de casamento em si é um desenrolar de dramas humanos que expõem na tela do cinema as mazelas das relações familiares, o pessimismo perante o mundo e a descrença principalmente na instituição “casamento”. Justine é publicitária, convida seu chefe (dono de uma agência) e é promovida a diretora de arte durante a festa. Entretanto, terá que fazer um slogan para uma nova campanha. Temos aí também uma crítica à dinâmica das relações de trabalho – o profissionalismo em detrimento das questões pessoais ?

Começa o filme e Justine está esfuziante com o casamento. Só que durante a festa do casamento (a qual chega com duas horas de atraso!), vai entrando em depressão. A festa é responsável pela queda no astral? Possivelmente. Sua mãe é descrente com relação ao casamento. Não acredita no amor (veja que interessante: uma visão totalmente contrária à figura da mãe da noiva, tão zelosa por valores sentimentais e religiosos – qual a mãe que não realiza o sonho pessoal de ver uma filha casada?). Seu pai faz fanfarronices à mesa. Parentes que aparentam. Chefe que está presente ao casamento mais preocupado, como já mencionado acima, na próxima campanha publicitária. Em certa altura, Justine desabafa para a irmã Claire e para a mãe: “estou com medo”. Medo de que? Do futuro que está por vir? Ou pelo estigma das relações humanas, que inevitavelmente somos todos vítimas – e isso não é privilégio de ninguém. Justine fica deprimida. Fica melancólica. Justine está com Michael, seu marido, no quarto. Prontos para a lua de mel? Começam a se beijar. Os rompantes de desejo são bem comuns nos intervalos de melancolia. É como se tentássemos dizer a nós mesmos: “Não, não é possivel ficar melancólico neste momento”. Só que o desejo se esvai em minutos. Justine deixa Michael no quarto e sai para ver a festa que ainda acontece. Se a melancolia permanece em Justine como fato consumado, em Michael ganha ares de resignação. Ele não reclama. O casamento termina melancolicamente, todos os convidados vão embora – inclusive a despedida de Justine e Michael é… melancólica. O casamento é um grande teatro, motivado por rompantes de desejo e que incorre em altos custos, gastos exorbitantes – esse fato do custo do casamento é, a todo momento, lembrado. Tudo é comercial, afinal, não existem bobos nessa história.

Aí entra a segunda parte, que não é mais de Justine, mas de Claire. E entra a razão do título do filme ser “Melancolia”. Melancholia é o nome do planeta que se esconde atrás do sol e que a cada dia que passa, traz o iminente perigo de se chocar com a Terra. Os planetas dançam numa sinfonia instigante, ao som da trilha sonora de Richard Wagner. Quem fica extremamente preocupada com a possibilidade do cataclismo é Claire. Justine está deprimida desde a festa do casamento. Está inerte, não tem mais forças nem para tomar um banho. Vai morar na casa da irmã. John, marido de Claire, é astrônomo e faz o contraponto ao pavor que sua esposa tem de morrer. É a reserva moral e psicológica da família. O perigo ronda a mansão onde moram. A residência equivale ao planeta Terra: tudo gira em torno daquele lugar. Melancholia irá se chocar com a Terra ou com aquela casa? Nada acontece mais em volta. Justine encara a possiblidade da morte com naturalidade. Afinal, está deprimida e melancólica. Tudo está perdido, então para que se preocupar? Já Claire é como um pêndulo: alterna entre a esperança (de que os planetas não se choquem) e o pessimismo do fim.

“Melancolia” nada mais é o retrato do ir e vir dos sentimentos humanos. Alterna entre o negativismo que toma conta da gente e os espasmos de esperança em reverter situações que parecem definitivas. Um sentimento negativo que ao mesmo tempo em que é apresentado como algo ruim e a ser evitado, por outro lado nos torna imunes ao pior dos cenários que possa vir a acontecer. Um sentimento que desabrocha em todos nós, prolifera tal como um vírus, uma bactéria, mas não encontra uma explicação aparente para existir.

É um excelente filme sobre as diferentes nuances da Melancolia, tanto como sentimento, como um medo real, uma ameaça que nos atinge por completos. E a sequência dos planetas “dançando”, ao som de música clássica remete positivamente (sem melancolia) a “2001, um odisséia no espaço” – obra-prima de Stanley Kubrick.

Se os planetas vão se chocar ou não, só assistindo no cinema para saber. :o)

Trailer oficial do filme:

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