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Resenha crítica – Jogo sujo: o mundo secreto da FIFA


O livro que a FIFA tentou impedir. É essa a frase de chamada do livro “Jogo Sujo – o mundo secreto da FIFA: compra de votos e escândalo de ingressos” (Panda Books, 351 páginas), de Andrew Jennings, jornalista inglês da BBC e que também escreve para o Daily Mail e Sunday Times, e que mostra as tenebrosas transações, negociatas e bastidores da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA). Após a leitura desse livro, o leitor terá a impressão de ter assistido a um filme de máfia, estilo “O Poderoso Chefão”, com exemplos surpreendentes de como um grupo fechado de pessoas foi (e ainda é) capaz de utilizar todos os meios possíveis para não só se manter no poder da instituição, mas também fazer dela fonte de lucros. E certamente é por isso que Jennings passou a constar no hall de persona non grata da FIFA: porque neste livro-reportagem fez questão de destrinchar as atividades suspeitas desta federação, desde 1974, ano que marcou a eleição de João Havelange para o cargo de presidente da FIFA, vencendo (de modo suspeito) o inglês Stanley Rous. Aquele ano marcou, o que Jennings chama de “nova fase” da FIFA, correspondente a uma mudança política marcante, favorável à expansão do futebol pelos quatro continentes e que também pautou-se na forte comercialização e marketing da entidade. O preço desse novo tempo tem sido muito caro: o desgaste moral e ético da FIFA, em prol do enriquecimento de alguns dirigentes, que tais quais um polvo, buscaram alçar seus tentáculos em diferentes ramos ligados ao futebol para favorecimento próprio.

Há uma notória distinção entre “instituição” e “organização”. Geralmente uma instituição é baseada em valores éticos, morais, honestos em prol de alguma causa. Já organização, dependendo das atividades que desempenha, pode ser relacionada a máfia. É assim a interpretação que se faz quando analisamos o histórico desempenhado pelos dirigentes da FIFA que o livro lança mão: João Havelange, Joseph Blatter, Jack Warner (presidente da Concacaf) e diversos representantes de associações nacionais de futebol (muitas africanas e do Oriente Médio). Não só falando de corrupção, mas também de suas relações com a sociedade, como pode então FIFA, que se preza defensora não só do futebol, como também da prática de paz mundial, ter tido amizades com ditaduras sanguinárias como a da Argentina, na celebração da Copa do Mundo naquele país, em 1978? Ou então, como pode ter, entre seus membros no Comitê Executivo (votantes e administradores da instituição, ops, organização), líderes nacionais ligados a ditaduras como as da Arábia Saudita?

O livro desmembra essas relações e mostra também a ascendência da Adidas, uma das principais fornecedoras de material esportivo existente até hoje, sobre as federações de futebol. Horst Dassler, presidente da Adidas, foi o principal financiador da campanha de Havelange para a presidência da FIFA. O apoio foi apenas porque gostava do brasileiro? E as relações com a International Sport and Leisure (ISL), que durante décadas foi detentora dos direitos de transmissão das Copas e Jogos Olímpicos? Andrews Jennings descortina, nesse “Jogo Sujo”, como se deu o processo de influência que a empresa exerceu sobre a FIFA: chantagem, lavagem de dinheiro corrupção (muita corrupção)… até o contexto que explica a sua falência, em 2001. E também exerce forte vigilância sobre Sepp Blatter, suíço, presidente da FIFA desde 1998, quando novamente numa eleição pra lá de controversa – imitando Havelange, seu antecessor e padrinho político no futebol – venceu o sueco Lennart Johansson, então presidente da UEFA. O leitor irá se deparar com situações supreendentes, que mostram que o futebol é um jogo disputado muito além das quatro linhas: envolve fraudes, adultério (uma metáfora utilizada para explicar, por exemplo, a substituição da Mastercard pela Visa, no patrocínio master das Copas do Mundo – mesmo a Mastercard sendo parceira antiga da FIFA, tendo a primazia nas negociações de contratos e oferecido 180 milhões de dólares pelo patrocínio das Copas de 2010 e 2014, cerca de 10 milhões de dólares a mais que a Visa e esta tendo sido a vencedora (?) da negociação), corrupção (esquemas de compra de votos nas escolhas das sedes de 2006 (quando a África do Sul tinha a promessa verbal de Blatter para a realização da Copa, tinha a maioria da promessa de votos das confederações internacionais e no final perdeu o direito de sediar a Copa para a Alemanha só porque um dirigente da Oceania resolveu não ir votar naquela eleição) e censura aos jornalistas que desafiavam o status quo da entidade.

Aliás, no livro de Jennings, a censura é a todo momento lembrada. O jornalista enfrentou intimidações e teve por diversas ocasiões seu acesso negado a reuniões da FIFA, sendo inclusive banido. Mas Blatter é apenas a ponta do iceberg nesse esquema todo, já que como presidente da FIFA, é o mais exposto na mídia. Outro dirigente do alto escalão é Jack Warner, de Trinidad & Tobago, presidente da Concacaf – confederação que engloba os países da América do Norte, América Central e Caribe. Uma forte e poderosa confederação, sem dúvida, já que tem muitos países associados, com poder de voto (imaginem, a “poderosa” Antígua, ou a Jamaica, o Haiti…). Warner atingiu o ápice de praticar delitos no futebol no esquema da venda de ingressos para a Copa de 2006, na Alemanha, quando, por sinal, a seleção de Trinidad & Tobago (país de Warner) disputou pela primeira vez uma Copa do Mundo. Ingressos vendidos de forma suspeita, favorecimento explícito à agência de turismo de Warner, que tinha o direito de comercialização dos ingressos, pacotes de viagens. Os tentáculos do dirigente eram muitos – assim como os da FIFA, que mascaram as reais intenções dos dirigentes da entidade máxima do futebol: o fair play é apenas uma retórica, o que interessa é o lucro, mesmo que para atingir esse fim, seja necessário se utilizar de todos os meios.

Enfim, “Jogo Sujo” merece a leitura, por mostrar as entranhas de uma outra FIFA, que no fundo está pouco se lixando para ideais de democracia, inclusão social por meio do esporte e paz no mundo. É uma organização que mais lembra a máfia de Don Corleone e seus asseclas, interessados em se manter no poder por décadas e cada vez mais lucrar com o esporte. E faz perceber ao leitor brasileiro que mensalão, corrupção e pagamento de propinas não acontece somente por aqui, mas também nesta organização que nasceu em Paris, em 1904, e hoje tem sua sede em Sunny Hill, na Suíça – terra dos relógios (pontuais, eficientes e precisos) e do queijo, que na FIFA, cheira mal.

Assista abaixo a entrevista de Andrew Jennings, autor do livro, ao programa “Bola da vez”, exibida na ESPN Brasil, em 9 de julho deste ano:

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