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O exemplo vascaíno, o sentimento que não pára.


Domingo, 07 de dezembro de 2008. Cerca de 10 milhões de torcedores espalhados pelo Brasil demonstram a mesma expressão de dor e sofrimento, que num misto de choro e incredulidade, parecem não acreditar que seu clube – o Clube de Regatas Vasco da Gama – acabara de ser rebaixado para a Série B do campeonato brasileiro de futebol. O Vasco, clube que historicamente teve papel importante na consolidação da democracia no esporte – foi o primeiro clube de futebol a aceitar negros e mulatos em suas hostes, em 1923, numa época em que as teses racialistas imperavam no Brasil – e que desde a década de 1990 até 2007/2008, vivia sob o jugo da ditadura imposta por Eurico Miranda, o cartola (dublê de deputado), quando a censura aos associados e a guerra com a imprensa foram as principais diretrizes do ex-presidente vascaíno. Se conquistou títulos importantes, como o Campeonato Brasileiro de 1997, a Taça Libertadores da América em 1998 e a Copa João Havelange 2000 (equivalente ao Campeonato Brasileiro daquele ano), essas conquistas deveram-se mais aos bons jogadores como Edmundo, Romário, Juninho Pernambucano, entre outros, que vestiram a camisa cruzmaltina naquela época.

Tudo isso foi ofuscado no início de dezembro de 2008, quando o Vasco conheceu, pela primeira vez em sua história, o caminho da segunda divisão do futebol brasileiro. Decerto que isso ocorreu já sob a nova administração no clube, que tinha em Roberto Dinamite, ex-craque vascaíno, a promessa de novos rumos. Teve até tentativa de suicídio em São Januário, quando um torcedor subiu na cobertura das arquibancadas e ameaçou se jogar do alto. Naquele dia, os milhares de torcedores vascaínos experimentaram o drama que outros grandes clubes, como o Corinthians, o Grêmio, o Palmeiras, o Fluminense (que até a terceira divisão já frequentou), o Atlético-MG e o Botafogo, só para citar alguns, já vivenciaram em outras épocas. Para qualquer grande clube, disputar a segunda divisão é o pior dos cenários: fuga de patrocinadores (já que a Série B possui pouca visibilidade na mídia), cotas de televisão reduzidas, pouco interesse dos torcida, horários de jogos ortodoxos (jogos às terças e sextas, à noite). Tudo isso tem, como consequência, a pouca arrecadação aos cofres do clube. E para os torcedores, um capítulo à parte: as constantes piadas, zoações e ironias das torcidas adversárias. A dor na alma costuma ser pior que a dor no bolso.

O que fez o Vasco? Disputou a segunda divisão, mas internamente promoveu profunda reformulação. A começar pela chegada de Dorival Júnior, competente treinador, já tendo dirigido outros grandes clubes do futebol brasileiro. E principalmente pela implantação do gerenciamento profissional em seu futebol, ao contratar Rodrigo Caetano – ex-jogador do Grêmio, que virou dirigente profissionalizado, injetando uma nova mentalidade (arejada) no futebol do clube. Tudo passaria a ser profissional: desde o tratamento com os “boleiros”, até a preparação da infraestrutura, planejamento de calendário de treinamentos, concentrações, alimentação de jogadores e principalmente, a política racional na contratação de novos jogadores – sem contratações mirabolantes, endividamento ad eternum do clube. A chamada “política pé-no-chão”. A semente foi plantada e assim que retornou à elite do futebol brasileiro, ao vencer a Série B, começou a dar frutos a partir do início do segundo semestre desse ano (2011), quando o Vasco conquistou a Copa do Brasil – competição mata-mata, eliminatória desde a primeira fase, que só perde em importância para o Campeonato Brasileiro. Mas que garante vaga na Copa Libertadores da América – principal competição futebolística das Américas, cujo vencedor carimba o passaporte para disputar o Mundial de Clubes, no fim do ano, no Japão. O clube estava há oito anos sem conquistar um título – o último acontecera em 2003, ao vencer o Campeonado Carioca daquele ano.

Se não bastasse voltar a erguer uma taça, o clube dá novamente um exemplo de profissionalismo – assim como já ocorrera ao permitir que negros e mulatos vestissem sua camisa em jogos oficiais:  mesmo tendo vencido a Copa do Brasil e já com vaga assegurada na Copa Libertadores da América 2012, o Vasco mantém a mesma “pegada” e disputa também a liderança do Campeonato Brasileiro. O que causa surpresa é justamente o fato de que, tradicionalmente, ao vencer a Copa do Brasil e garantir vaga na principal competição sul-americana, o clube vencedor costuma encarar o Campeonato Brasileiro sem muito estímulo, com enfado, fazendo figuração de luxo, torcendo para que o ano acabe logo. Caso venha a vencer também o Campeonato Brasileiro desse ano, o Vasco fará história, ganhando as duas principais competições do futebol nacional, no mesmo ano.

Que o exemplo vascaíno de garra, raça, motivação e principalmente profissionalismo também chegue aos demais clubes do futebol brasileiro – principalmente os clubes que fazem grandes investimentos, contratações milionárias (e badaladas) e que mesmo assim chegam a ficar dez partidas sem vencer.

Um Vasco sem grandes nomes, mas que segue à risca seu lema: o sentimento não pode parar.

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  1. Carlos Antônio
    setembro 22, 2011 às 22:57

    Fabrício, o meu lado humanitário ficou, no dia 7, ao lado do Ricardo Gomes e continua solidário hoje.
    O meu lado torcedor quer ver o Vasco no buraco. Este mesmo lado que não entende um time como o Flamengo ficar dez jogos sem vencer.
    O torcedor é passional. Tem toda a carga de uma tragédia grega ou de um tango.
    Muito bom o seu texto. Acontece que querer ver o Ricardo bem é uma coisa. Tão forte quanto querer ver o Vasco mal. E o Flamengo com vergonha na cara. Grande abraço.

  2. setembro 24, 2011 às 3:02

    Sim Carlos, concordo. O que quero dizer é: não podemos deixar de notar o profissionalismo vascaíno que, mesmo tendo vencido a Copa do Brasil e com vaga garantida na Libertadores 2012, continua lutando nas primeiras colocações do campeonato brasileiro – e também na Copa Sul-americana – quando o normal, é o time afrouxar, já estando garantido noutra competição.

    Abraço.

  3. margarida sousa
    dezembro 1, 2011 às 23:03

    Muito bom o texto. Até reconheço que o Vasco se esforça e tem muita garra e que o sentimento não pode parar mas, tal qual vascaínos, desejo que fiquem bem longe do Flamengo a quem sempre insistem em chamar de “mulambada”. Eta palavra mais feia! E flamenguistas certamente terão que chamá-los de que? heróis, melhor time do mundo e o que mais? Este ano, no Brasil, esse time está fazendo uma boa campanha. E ano que vem, será que vai continuar assim, hein?
    Bjinhos

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