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Capitães da Areia – Resenha crítica


Abrindo as comemorações do centenário do nascimento do escritor Jorge Amado (1912-2012), o filme “Capitães da Areia”, dirigido por sua neta, Cecília Amado, é uma bonita reverência ao falecido e imortal escritor. A começar por todas as particularidades que cercaram o filme, desde a escolha do elenco – formado por jovens atores oriundos de ONGs baianas – até a trilha sonora – feita por Carlinhos Brown, elemento significativo e digno representante da cultura afro-baiana. “Capitães da Areia” é uma das obras mais significativas de Jorge Amado, escrita em 1937, e possivelmente por isso tenha sido selecionada por sua neta para abrir o rol de homenagens ao grande escritor. Na tela, percebemos o olhar fidedigno do escritor, reverberado agora por Cecília, da Cidade Baixa soteropolitana, com seus malandros, capoeiras, ruas escuras (e sujas), pescadores, baixo meretrício e clima hostil e desesperançoso, que permeiam e frequentam basicamente todas as obras de Jorge Amado, sem, entretanto, parecerem clichês repetitivos, muito pelo contrário: sempre há uma revisitação a esses temas de forma original, sempre numa nova abordagem que contribui para o enriquecimento da formação cultural brasileira. Difícil seria ainda fazer uma separação entre a análise da obra literária e do filme, inclusive porque quase toda adaptação para as telas acaba caindo no limbo, sendo massacrada pela opinião crítica – o que está longe de acontecer no caso desse filme. O submundo de Salvador pode ser comparado àquilo que o escritor cubano Pedro Juan Gutierrez (autor dos célebres “Trilogia Suja de Havana”, “O Rei de Havana” e “Animal Tropical”, entre outros) definiu bem como “Realismo Sujo” o seu estilo literário. É a história que mesmo adornada por pelas imagens do mar, do pôr-do-sol, das paisagens panorâmicas da capital baiana, não deixa de contar o dia-a-dia dificil e sofrido de um povo que tem suas particularidades e sua cultura peculiar. Nesse universo destaca-se Pedro Bala, o jovem líder, capoeira, da “gangue” dos jovens que lutam para sobreviver no filme.

No Brasil, a obra cinematográfica que mais chegou perto desse estilo possivelmente tenha sido “Amarelo Manga” (2003), de Claudio Assis, que retratou o subúrbio de Recife de maneira crua e impressionantemente realística. Em “Capitães da Areia”, temos a Salvador dos anos 1930, com crianças e jovens abandonados por suas famílias, jogados às ruas, sem infância e esperança, obrigados a sobreviver na selva litorânea, praticando delitos e pequenos crimes – algo que ainda hoje, em pleno século XXI poderia ser adaptado para a história dos jovens de rua. Seriam os jovens da Candelária, chacinados em julho de 1993, também Capitães da Areia – ou do Asfalto? Estamos recorrendo aqui a alguma espécie de “glamourização” da violência? Não. Apenas retratando que independente de uma cultura própria a cada “comunidade imaginada” – seja na Cidade Baixa de Salvador, na periferia do Recife ou no centro do Rio de Janeiro, o efeito comportamental exposto por aqueles destinados à exclusão social atua de forma emblemática e desconfortavelmente real pelo mesmo conjunto de atores sociais – que permanecem ocultos durante a maior parte do tempo e só aparecem nos noticiários policiais (quem se lembra do Sandro do Nascimento, sobrevivente do massacre da Candelária e que no ano 2000 sequestrou um ônibus da linha 174 e mobilizou o país durante uma tarde inteira, até terminar o episódio de maneira trágica).

Pedro Bala, Professor, Gato, Sem-Pernas, Boa Vida e Dora são personagens deste “Capitães da Areia”. Não vivem – sobrevivem. Os atores oportunamente escolhidos nas ONGs para retratá-los nas telas dos cinemas são a imagem de capitães da areia do dia-a-dia, submetidos à escola da vida, onde uma linha tênue os separam do Bem e do tentador Mal. Todos identificados com a exclusão social. Infelizmente muitos dos capitães da areia morrem na praia, antes mesmo de experimentar a sensação de mergulhar no mar. Morrem lutando, nas batalhas diárias às quais são submetidos – mesmo as que não desejam. Num país onde quem rouba um pão vai preso e o político que desvia milhões em obras públicas fica livre e é reeleito.

“Perdeu”, malandro. Mas não “esculacha”, certo?

Assistam o trailer oficial do filme:

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Categorias:Uncategorized
  1. outubro 12, 2011 às 9:32

    Parabéns Fabricio…Belíssima resenha…

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