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Viva Cláudia Leitte!


Já sei que esse post vai gerar muita polêmica. Mas é justamente esse um dos objetivos desse blog: não ser uma unanimidade. Mais importante do que gerar tráfego, desejo despertar o raciocínio, discussões (civilizadas, por favor) e argumentos. E por favor, o título desse post não é uma provocação, apenas um ponto de vista. Não sou fã da cantora Cláudia Leitte, nunca fui a um show dela, nunca comprei um CD (ou baixei alguma de suas músicas) e também não sei cantar uma música sua. Mas defendo inexoravelmente sua postura corajosa perante as críticas que ela vem enfrentando desde sua apresentação no Rock in Rio 4. Cláudia Leitte vem sendo duramente criticada porque… não canta rock. “O lugar dela é no carnaval de Salvador”, dispara o senso comum que povoa principalmente as redes sociais – Twitter, Facebook, Google +. É como se criticar Cláudia Leitte fosse um mantra obrigatório para aqueles que desejam estar bem diante seus seguidores, afinal: “Rock in Rio é lugar de roqueiro”, não é mesmo?

Não, não é. Desde sua primeira edição, em janeiro de 1985, qualquer criança saberia dizer que o festival idealizado por Roberto Medina nunca foi 100% rock. Naquela edição tivemos artistas como Ney Matogrosso, Ivan Lins, Al Jarreau, Elba Ramalho, Alceu Valença, Moraes Moreira, entre outros. Em 1991, no segundo do Rock in Rio, o grupo teen New Kids on The Block se apresentou e ainda tivemos o psicodélico Dee-lite. Naquela edição, Lobão foi vaiado pelos metaleiros porque colocou a bateria da Mangueira no palco do festival. No Rock in Rio 3, em 2001, outros tantos artistas pop… mesmo com Carlinhos Brown tendo garrafas de água mineral jogadas em sua direção… então fica a pergunta: a crítica a Cláudia Leitte é feita diretamente a ela, ao estilo “baiano” ou simplesmente mascara a intolerância que povoa mentes no mundo atual? Seria maravilhoso se a crítica fosse unicamente à cantora, afinal, ninguém é obrigado a gostar de um artista. Eu por exemplo, não curto heavy metal – apesar de ter gostado da apresentação do Sepultura com um conjunto francês que toca tambores neste Rock in Rio 4. Mas nem por isso vou desmerecer o artista que se apresenta ou quem é fã. O que tenho percebido – principalmente porque tem sido o termômetro sentido nas redes sociais e nas conversas de bar – é que muita gente vem aderindo a esse pensamento primário do “Nós aqui, eles lá”. Inclusive muita gente que sei que é inteligente.

Chegaram até a propor que, “em retribuição” aos baianos, o Metallica fosse tocar num trio elétrico no carnaval de Salvador. Mal sabem que inúmeros conjuntos de rock já tocaram no epicentro da folia baiana, que é uma festa democrática e todo ano convida artistas de variados estilos musicais. O lendário vocalista e líder do U2 – uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, diga-se de passagem – inclusive já cantou junto de Ivete Sangalo no carnaval de Salvador, em 2006. (Vejam o video desse encontro no final desse post). Sertanejos como Zezé di Camargo e Luciano também já foram. E tantos outros. Então é preciso ter calma, pessoal. Não combina com o mundo globalizado essa idéia de separatismo musical, do “cada um em seu cada um”. O que é a música senão uma união de estilos, uma fusion de ritmos? O jazz começou assim, idem o samba e o funk. E com o rock, nascido nos anos 1950, com Chuck Berry e Little Richard (só pra citar alguns), não seria diferente também. Inclusive porque da união de estilos nascem outros, tão ou mais agradáveis de se ouvir. Até grandes lendas musicais vivem fases que jamais foram monolíticas: Miles Davis era do jazz, mas experimentou fases distintas em sua carreira. Viveu inclusive uma fase “elétrica”, nos anos 1970. Os Beatles podem ser citados como exemplo também. Os quatro rapazes de Liverpool, todos de terno e gravata, correspondem apenas à primeira fase da carreira do grupo. Já em fins da década de 1960, em plena época do Peace and Love, aderiram à vestimenta hippie, por exemplo. John Lennon e George Harrison chegaram a exacerbar esse pensamento, aderindo mais ainda à causa multicultural.

Alguém mais crítico pode alegar que o evento se chama “Rock in Rio”, logo, só tem que ter rock. Realmente é um argumento plausível. Só que, como já citado neste post, o evento nunca foi essencialmente de rock, até porque seria comercialmente inviável de acontecer se seguisse o rígido mantra intolerante. Além de drenar dinheiro para os bolsos dos organizadores e patrocinadores, é consideravelmente saudável que outros estilos habitem um festival “de rock”, trazendo inspiração e democracia para a música. Se fosse proibido tocar quem não fosse de rock, não teríamos, por exemplo, a belíssima apresentação de Stevie Wonder no último Rock in Rio 4. E a de Elton John também. Bandas de rock brasileiras, como Jota Quest, Paralamas do Sucesso, Titãs e Capital Inicial inclusive já declararam que “bebem em outras fontes” musicais diferentes do rock. Skank, que também tocou no Rock in Rio 4, não é, em essência, um grupo de rock: começou fazendo algo parecido ao reggae.

Portanto, menos intolerância e mais integração. Até porque não combina com a raiz cultural do brasileiro esse apartheid todo que estão fazendo. Somos um povo miscigenado, democrático na convivência.

Viva Cláudia Leitte – mesmo que eu não goste das suas músicas e não fosse a um show dela nem que me pagassem.

Vejam o video de Bono Vox e The Edge no carnaval de Salvador, com Ivete Sangalo:

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  1. Fátima
    outubro 12, 2011 às 21:05

    Valeu, estou de acordo.bjs Fátima Gomes

  2. Rubens
    outubro 12, 2011 às 23:30

    Meu argumento é extremamente simples: se eu pago para ouvir/ver rock, eu não quero saber de Bateria da Mangueira, Axé, MPB, Samba, Sertanejo, Claudia Leite, Ivete Sangalo… Cada um no seu canto. Se tem gente que acha bacana misturar tudo, eu não acho e não sou obrigado a achar bacana “só porque Claudia Leite é artista tambem”. Pelo contrário, o que eu realmente acho bacana é a separação bem clara, é existir um lugar onde eu possa ouvir apenas rock, sem o perigo de ser obrigado a ouvir o que não gosto (ou mesmo não suporto!).

    Em várias situações é a mesma coisa. Seria otimo ter uma radio voltada apenas para um estilo musical, sem o perigo de voce se deparar com outro no meio da programacao, ou um canal de televisao só com seriados americanos, sem a menor chance de você encontrar uma novela brasileira, um reality show ou um programa de calouros.

    O nome disso é SEGMENTACAO. E eu sou totalmente a favor.

    E quem gostar de MPB ou de Claudia Leite, que procure sua turma. De preferencia, bem longe da minha!… 😛

    • outubro 12, 2011 às 23:44

      Perfeitamente, Rubens. Entretanto, os ingressos para o Rock in Rio foram vendidos de forma segmentada: quem comprou ingressos pro dia 23/09 sabia que Claudia Leitte iria cantar. Justamente por isso, a organização do festival segmentou as datas. Teve um dia especificamente para heavy metal, outro mais “pop” e por aí vai.

  3. outubro 12, 2011 às 23:33

    Concordo que houve intolerância mas tb da parte dela. Todos estão equivocados e ela perdeu a grande chance de ficar calada e mostrar elegância. Tentou revidar e foi bem pior. Não conhecia esse vídeo do bono com ivete. SENSACIONAL. Amo o Bono e ivete é ivete. Valeu!

  4. outubro 13, 2011 às 12:59

    Creio que o Rock in Rio deve abrigar sempre variadas vertentes musicais. Essa mistura
    permite que conheçamos e até passemos a gostar de outros artistas, de outro tipo de música,
    etc. Como você bem disse, quantos foram os artistas pouco ligados ao Rock que se apresentaram nas versões anteriores, alguns com muito sucesso?

    Vilaça.

  5. Margarida Sousa
    outubro 13, 2011 às 20:36

    Opinião muito bem fundamentada. Concordo totalmente com você Fabrício. Cláudia Leite e Ivete não fazem meu estilo musical e muito menos o rock pesado, porém respeito o gosto musical de cada um. Aconteceu também com o Erasmo Carlos – roqueiro assumido – que foi vaiado no Rock In Rio. Parabéns pela matéria.

  6. Alessandra
    outubro 31, 2011 às 9:47

    Concordo com vc, menos intolerância e mais integração. Para mim, a marca Rock in Rio foi só uma idealização que talvez pelas dificuldades que o livro retrata no primeiro, teve sua flexibilização nos ritmos e estilos que se apresentam desde então. Quer mais contradição que Rock in Rio em Lisboa ? Ninguém é inocente, o intuito é puramente comercial e qualquer slogan “por um mundo melhor” é mero marketing e diversão é a sua finalidade.
    Eu fui no dia do Stevie e adorei.
    Quem não tolera, não vá.

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