Início > Uncategorized > Uma homenagem à bondade e à gratidão

Uma homenagem à bondade e à gratidão


Resenha crítica do filme “O garoto da bicicleta” (“Le gamin au vélo”) – BEL/FRA/ITA – Direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne.

“O garoto da bicicleta” é a retomada que os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne fazem ao cinema humanista, centrado em personagens que transitam em torno da emoção – do amor ao ódio. Neste filme, a todo o momento essa temática circunda as personagens, contando ainda com uma bela contribuição da trilha sonora. Embora a história apresentada seja algo corriqueiro aos dias atuais (o pai que abandona o filho, que busca compensar a ausência paterna com o que a vida contemporânea é capaz de lhe oferecer, bailando na linha tênue que separa sua sobrevivência num ambiente familiar tranquilo de uma possível e-  real – incursão no submundo da marginalidade), a saída encontrada pelos diretores é a melhor possível, tornando um tema pesado numa apreciação de algo que é muito comum aos nossos olhos. Certamente por isso, “O garoto da bicicleta” levou o Grande Prêmio do Júri, no Festival de Cannes deste ano (2011): por fazer do óbvio uma coisa sutil e encantadora aos olhos dos espectadores.

Cyril tem 11 anos e foi abandonado pelo pai no orfanato. Passa toda sua infância – e início da adolescência – na esperança de que um dia o pai o vá buscar e o levar para casa. Fica nessa expectativa durante muito tempo, já que o pai havia prometido lhe buscar em um mês. Para completar, sua bicicleta fora vendida pelo pai. A simbologia que a bicicleta adquire é enorme – e possivelmente por isso foi escolhida para compor o título da fita -: corresponde à infância perdida daquele que não a teve.

O destino de Cyril se cruza com o de Samantha (Cécile de France – a atriz do momento no cinema francês), uma cabeleireira que leva uma vida bastante monótona. Um dia, fugindo dos inspetores do orfanato, Cyril agarra-se a Samantha, que estava num consultório médico. Dois destinos se entrecruzam: o do garoto que mesmo abandonado, teimava em acreditar na esperança, e o de um adulto que olhava a vida que vivia com desesperança. A partir daí uma relação de amizade, carinho e amor de mãe acontece entre os dois, a ponto de Samantha se tornar guardiã de Cyril nos fins de semana.

Os irmãos Dardenne, entretanto, avançam em suas cinebiografias, ao adicionar um elemento desarticulador: Wes, um jovem que chefia uma gangue de garotos, que cometem crimes pela cidade. A linha tênue em que muitos jovens desamparados de uma família percorrem: a que separa uma vida estável e familiar da vida fácil do crime. Interessante é perceber que pelo menos para nós, latino-americanos, é altamente surpreendente ver que isso pode ocorrer até numa “sociedade melhor”, européia, loura e que tem olhos azuis (o filme é rodado numa cidade belga).

Um elemento adicional é apresentado nesse filme que desvenda as emotividades: a questão do ódio, cada vez mais presente nas sociedades contemporâneas. O que conhecemos como a “Lei do Talião” (olho por olho, dente por dente), mostra-se latente em “O garoto da bicicleta”: o ódio, a vingança custe o que custar. É inevitável a lembrança do filme “Em um mundo melhor” (“In a better world”), co-produção sueca/dinamarquesa da diretora Susanne Bier – também resenhado neste blog (clique aqui e leia a resenha, publicada em março deste ano) -, que põe o dedo na ferida na questão do bullying e da intolerância na sociedade pós-moderna.

“O garoto da bicicleta” é uma bonita homenagem que os irmãos Dardenne fazem a esse mundo em que vivemos: mesmo numa época de tanto abandono, tanta individualidade e desapego às relações humanas, gestos humanos e harmônicos podem acontecer inesperadamente, de pessoas que nem conhecemos – e o melhor: podem se mostrar surpreendentemente gratificantes – apesar dos pesares.

VEJA O TRAILER OFICIAL DO FILME – COM LEGENDAS:

Anúncios
Categorias:Uncategorized
  1. dezembro 4, 2011 às 9:17

    Fala Fabrício, parabéns pela resenha. Vimos o filme ontem, motivados pela conveniência do horário (era o único começando às 20h, tinha que buscar a Cla numa festa logo depois das 22h…) e pela crítica dO Globo, mas valeu a pena. Me chamou atenção que o “encontro com o pai” é a parte menos emocionante do filme, se é que tem alguma parte realmente emocionante para os padrões norte- e latino-americanos. Enfim, o filme é muito bom mesmo e para mim, que aprecio o modelo hollywoodiano, é bom de vez em quando mudar de referências. Abs!

  2. dezembro 4, 2011 às 18:57

    Estou louca pra ver esse filme!
    Adorei seu blog e todas as dicas… Já sou seguidora!

  3. Roberta Martins
    dezembro 29, 2011 às 23:52

    Parabéns pela resenha. Relata muito bem a riqueza desta (como você mesmo diz)homenagem feita pelos irmãos Dardenne. Saí do cinema envolvida pela simplicidade e intensidade dadas a temática, de fato, bem conhecida.

    • dezembro 30, 2011 às 1:43

      Valeu, Roberta! Obrigado por acessar meu blog e escrever o que achou do texto. Li ontem no Globo que “O garoto da bicicleta” foi selecionado pelo jornal, como sendo um dos melhores filmes de 2011. Bjs!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: