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Cultura para quem precisa de Cultura


Esse post não é para fazer a crítica do filme “Dawson Ilha 10” co-produção Brasil/Chile, que apresenta a história dos ministros de Salvador Allende, confinados na Ilha Dawson, imediatamente após a ditadura implantada por Augusto Pinochet. O filme é um importante manifesto político pró-liberdade.

O motivo desse post é outro…

Infelizmente chego a uma conclusão (que já venho pensando há algum tempo): a exibição de filmes como esse, é para poucos. Acabo de escrever em meu Twitter justamente o raciocínio de que não interessa à indústria cultural brasileira (e aí a gente coloca no mesmo saco de gatos tanto um governo do PSDB, quanto um governo do PT – agora personificado na pasta da ministra Ana de Hollanda) que filmes ditos “para pensar” sejam distribuídos nas salas de exibição de toda a cidade e estado do RJ.

Fiz uma pesquisa rápida no caderno Rioshow de hoje e percebi que em grande parte das salas de cinema domina a exibição da saga “Crepúsculo”, seguida dos Muppets e da animação “O Pinguim”. Ah, tem “O Gato de Botas” também…

Enquanto isso, o documentário sobre Tancredo Neves (dirigido pelo Silvio Tendler), restringiu-se ao Unibanco Arteplex (o horário até razoável, embora bastante restrito: 18h30). Esse filme sobre os ministros de Allende (Dawson Ilha 10) só é exibido…… no Cinépolis Lagoon (Lagoa). O horário? 22h30.

OK… digamos que um jovem historiador, que more em Realengo (ou Bangu, ou em Belford Roxo, ou em Bonsucesso, ou em Vigário Geral – ou na Ilha, como é o meu caso – embora eu não seja mais tão jovem assim rss), ou um leigo qualquer, interessado no tema, queira assistir… ir pra Lagoa às 22h30, com o atual sistema de transportes do Rio? Nem pensar, não é mesmo?

Muitos outros filmes “inteligentes” já foram exibidos, como “Operação Condor”, de Roberto Mader. Ou o mesmo “Jango” (do mesmo Silvio Tendler que agora dirige o documentário sobre Tancredo Neves). “Iluminados pelo Fogo”, que mostra a Guerra das Malvinas, tampouco foi exibido (inacreditavelmente, há cerca de dois anos achei numa barraca de DVDs piratas na rua Uruguaiana, no centro do Rio – local improvável). Em quantas salas foi exibido o excelente “Madame Satã”, de Karim Ainouz? Ou “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis? Só para falar de alguns…

O pessoal que mora no interior, nem se fala… uma vez estava em Cabo Frio (RJ) e o único cinema da cidade passava… filmes da Xuxa nas duas salas de cinema…

Então fica a pergunta: a quem interessa que o mainstream não tenha acesso a filmes sobre história ou documentários “pra pensar”? Logico que politicamente é melhor que as bobagens e os enlatados estadunidenses influenciem a grande massa de “Zés Chinelões” – desde que eles se contentem em apoiar Olimpíadas, Copa e brinquem o carnaval e não encham o saco das “otoridades” com perguntas e questionamentos – não é mesmo?

Bem, fica aqui o meu registro, na torcida para que a população tenha acesso democrático a bons filmes – e não apenas a bobagens pasteurizadas que algum engravatado de gabinete ache que temos que ter.

Fazer cultura não é apenas dar incentivos fiscais à vinda do Cirque du Soleil (grande espetáculo, não questiono). Ou então não é patrocinar peças teatrais caríssimas, também restritas a cinemas da zona sul e Barra. Não é fazer alguns shows em lonas culturais da zona oeste ou zona norte. Talvez, na visão do establishment, oferecer a (débil) programação dominical (Faustão, Trapalhões, Sílvio Santos, Programa do Gugu…) seja a maneira correta de manipular a plebe. “Bobagens para mentes vazias”.

A página institucional do Cinépolis Lagoon chega a ser uma afronta à realidade dos “pobres mortais” que não têm acesso à cultura: http://www.cinepolis.com.br/institucional/noticia.php?cnc=23 (cinema com poltronas loveseat, atendimento personalizado e até serviço de… gourmet!). Imagino que o preço deva ser muito além do que a média dos trabalhadores possam pagar.

Cultura vai muito além disso. É proporcionar acesso a quem não pode.

A esperança é a última que morre.

PS – Voltando a falar de “Dawson Ilha 10”, trata-se de um importante documento audiovisual, pois joga luz a um assunto pouco explorado pela história: o destino que os ministros do presidente Allende tiveram, já que a memória infelizmente tem o vício de “encapsular” as personagens, como se a queda de Allende tivesse ocorrido apenas no dia 11/09/1973 e depois disso, nada mais tivesse existido.

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Categorias:Uncategorized
  1. dezembro 2, 2011 às 17:37

    Nao entendi muito bem o post, ja que eu sei que voce entende bem os mecanismos de mercado. Nao quero entrar no merito da qualidade, mas voce sabe que cinemas nao passam filmes como esse documentario do Tancredo ou o filme sobre os ministros de Allende meramente porque é o tipo de filme que nao atrai as massas e interessa apenas a meia-duzia. Bem ao contrario da animacao do Gato de Botas ou aos sofríveis e indescritíveis filmes da Xuxa.

    Nao tem nada a ver com burocrata engravatado em Brasilia decidindo coisa alguma, voce sabe disso, e sim de uma questão de procura e oferta: se um cinema começar a exibir esse tipo de filme fora de determinados circuitos restritos (como as salas de arte patrocinadas), vai à falencia.

    Dito isso, o que você realmente espera, isto é, qual a sua sugestão? Que o próprio g*verno se torne um empresario de cinema e monte salas por todo o país, meramente para exibir filmes políticos subsidiados? Isso não seria um controle do Estado sobre o conteudo?

    Enfim, não acho que seja um problema simples, nem que dependa de burocrata engravatado. Depende apenas de cultura. Voce precisa criar o tipo de pessoa que quer consumir esse tipo de filme por livre e expontanea escolha pessoal, sem indução. E o Brasil carece desse tipo de pessoa, quando se sai de Ipanema, Posto 9 e outras praças restritas.

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