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Cartas de uma imperatriz – A vida privada de Carolina Josefa Leopoldina, uma personagem real


Certas personagens de nossa história só reverberam em nossas mentes se forem importantes dentro do processo histórico em que estão inseridas. Mesmo assim, a maioria delas padece de um caminho justo na hora em que suas biografias e trajetórias são analisadas. Muitos historiadores caem nessa armadilha e traçam suas pesquisas apenas dentro do contexto principal de suas vidas – e felizmente, caso sejam pesquisas bem-sucedidas, acabam descobrindo que a grandeza das personalidades não estão resumidas apenas na história dos acontecimentos. É como se os atores sociais estivessem encapsulados e tudo que fosse dito à  respeito deles, se restringisse apenas a um curto período de tempo – em muitos casos, alguns dias… ou até um dia.

A História do Brasil, especificamente falando da História do Brasil Imperial coloca em seu panteão figuras como D. Pedro I, José Bonifácio (mesmo assim, este recentemente incluído nesse hall graças a novos desdobramentos em pesquisas). No Segundo Reinado, D. Pedro II… mas seria por deveras ingênuo entender que somente estas personagens estiveram envolvidas no processo político do Brasil pré e pós-independente. O próprio D. Pedro I, durante décadas permaneceu restrito a certas idiossincrasias dentro da historiografia. Por exemplo, a mitificação de seu heroísmo ao declarar, às margens do rio Ipiranga, o famoso “Independência ou Morte!”. Ou então sua notória atração pelos prazeres da alcova. Durante muito tempo, a história que nossas professoras contavam (principalmente nas décadas de 1970 e 1980) resumiam personagens histórias apenas aos grandes acontecimentos, sem procurar entender que estas personagens estavam inseridas numa dinâmica (política, social, comportamental) que estava em constante movimento. A glamorização destes atores bastava para alimentar as imaginações de adultos e crianças. No Segundo Reinado, Duque de Caxias era o herói da Guerra do Paraguai – o lado sombrio deste personagem era esquecido, e principalmente a atuação do General Osório, na Batalha de Laguna, providencialmente esquecida.

Que história era essa que, aos olhos contemporâneos, era restrita e esquecida? Devemos, contudo, olhar com reprovação as pesquisas de outrora, ou apenas entender que o que alimenta a história é também a infinita possibilidade de explorarmos fontes, documentos, bibliografias e, com isso, realçarmos novas identificações e interpretações?

“Cartas de uma imperatriz” (Editora Estação Liberdade, 496 páginas, R$ 85,00) é o resultado de uma ampla pesquisa e minuciosa seleção de fontes realizadas pelas historiadoras Bettina Kann (Biblioteca Nacional da Áustria) e Patrícia Souza de Lima (UFRJ), que entre pesquisa, seleção e transcrições, analisaram cerca de 850 fontes documentais em arquivos brasileiros, austríacos e portugueses, chegando até o número de 315 cartas de Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena (Viena, 22 de janeiro de 1797 – Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1826) jovem monarca da Áustria, herdeira do trono dos Habsburgos. Leopoldina, que no Brasil passou a assinar seu nome como Maria Leopoldina foi arquiduquesa da Áustria, primeira imperatriz-consorte do Brasil, regente do Brasil em setembro de 1821 e, por oito dias, em 1826 (ano de seu desaparecimento), rainha consorte de Portugal.

As duas historiadoras – Betinna e Patrícia – reuniram cartas da jovem imperatriz, num livro que conta ainda com cinco  ensaios abordando o período histórico no Brasil e na Europa, a formação intelectual e moral de Leopoldina e a sua participação nos desígnios e desdobramentos da sociedade brasileira no começo do século XIX. Maria Leopoldina veio muito jovem para o Brasil e se mostrou uma figura importante não somente para a independência do país, como também entusiasta de pesquisas no campo da botânica e mineralogia. As cartas, escritas em alemão, francês, português e inglês, cobrem o período que vai de 1808, quando Leopoldina tinha apenas 11 anos, a 1826, ano do seu falecimento, e, mais do que retratarem as expectativas da imperatriz, mostram uma consistente consciência política – o que engrandece a personagem – e suas mágoas sofrimentos e tristezas diante do insucesso do matrimônio.

Em 1817, a princesa Leopoldina, digna representante dos Habsburgos, que era uma das mais importantes famílias da nobreza européia, após ser contatada pelo Marquês de Marialva – encarregado da Corte imperial, para buscar na Europa a futura esposa do monarca português – Leopoldina se casara com Pedro por procuração -, desembarcava no Rio de Janeiro. A jovem princesa austríaca fora educada sob os preceitos absolutistas e parecia saber, de antemão, que teria um papel fundamental na história desse recanto dos trópicos.

“Meu destino é o Brasil, e cumprirei com prazer o mais rápido possível” escreveu numa carta à sua irmã Maria Luísa, que havia sido esposa de Napoleão Bonaparte.

O engrandecimento da personagem é comprovado pelas cartas, que deixam transparecer uma monarca rica em sentimentos.

O livro contém um precioso caderno iconográfico (com obras selecionadas de artistas-viajantes que estavam no Brasil na época, como Johann Moritz Rugendas, Thomas Ender, que acompanhou Leopoldina na Missão Austríaca, e Debret, além de duas aquarelas da própria Leopoldina e alguns fac-símiles das cartas), a árvore genealógica da Imperatriz e de D. Pedro I, cronologia histórica, glossário de nomes, bem como um índice de todas as cartas e um índice onomástico.

Mais do que descortinar a importante (e até então desconhecida) vida privada de D. Maria Leopoldina, “Cartas de uma imperatriz” é uma referência fundamental para que as novas (e antigas) gerações percebam que as personagens históricas não merecem estar fadadas ao monolitismo que muitas vezes as interpretações pretendem encapsular.

Leiam três cartas da Imperatriz Leopoldina que integram o livro “Cartas de uma Imperatriz”:

P. 393

Carta a Francisco I
[226]

São Cristóvão, 7 de março de 1822

Querido papai!

Embora seja muito penoso para mim escrever, já que espero o nascimento para qualquer momento, considero meu dever mais sagrado lhe dar notícias minhas, uma vez que conheço bem demais seu coração paternal para ter certeza de que minhas linhas têm algum interesse para o senhor. Aqui reina um verdadeiro caos de idéias e cenas, tudo surgido do logro chamado espírito de liberdade, e nas províncias do Norte agora estão assassinando todos os europeus; Deus (que dispõe tudo para o bem do homem) permita que a situação fique calma, como quer me parecer; meu esposo declarou que ficará aqui; embora pensemos diferentemente em alguns aspectos, é melhor que me cale e observe silenciosamente. Beijo-lhe as mãos inúmeras vezes, assim como as da querida mamãe, e permaneço sempre com fervorosíssimo amor filial e respeito, caríssimo papai, sua filha mui obediente.

Leopoldina
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P. 409

Carta a D. Pedro I
[251]

São Cristóvão, 28 de agosto de 1822

Meu querido e muito amado esposo

Perdoe mil vezes que eu ralhei na minha última carta, mas deve ser-lhe prova de amizade de ser muito triste de ter me deixado faltar notícias suas; agora estou contentíssima com suas regras de Lorena; não é preciso recomendar-me as suas qualidades; seja persuadido, depois de dar-me tantas provas de confiança antes perder tudo que faltar aos meus deveres e bem do Brasil; os papéis se vão imprimir na Gazeta.

Sinto muito dar-lhe notícias desagradáveis, mas não quero faltar à verdade, mesmo se é penoso a meu coração; a tropa de Lisboa entrou na Bahia, e dizem que desembarcou; a nossa esquadra não se sabe o que fez, se é falta de ânimo dela é preciso o mais rigoroso castigo, chegarão três navios de Lisboa, os quais dão notícias de que os abomináveis portugueses querem sua ida para lá mesmo se voltasse ao Brasil outra vez, e que ia ao poder executivo a decidir se deve vir mais tropa para cá, é certo que aprontem a toda pressa dois navios; ontem deram a falsa notícia que estava uma esquadra de Lisboa fora da Barra de modo que todo se aprontou para recebê-la com fogo e bala.

O Abregé tem tido uma questão com o Martim Francisco, o último deve [ter] toda a razão, e o primeiro tem sido muito atrevido, de modo que era preciso eu o fazer calar; eu lhe escrevo isto porque penso que lhe representaram em baixo de outro modo falso.

Deram um tiro no autor do Diário, e o General Usley na qual diz irão que haviam de dar outro no amigo José Bonifácio; a Polícia já anda vigiando este negócio.

Mandou-se dar castigo ao autor do Correio que estas três últimas vezes tem sido o mais que possível.

Chegou um certo Veríssimo, dizendo que foi nomeado Encarregado dos Negócios dos Estados Unidos pelo Congresso de Lisboa; ele vem falar-me e o José Bonifácio me disse de eu ver se podia tirar-lhe alguma coisa pois soube que saiu mandado pelas Cortes, três meses faz de Lisboa, desembarcou na América inglesa, tratando de negócios deles, e por ordem dos mesmos veio para cá até mais ordenar, é muito mau sujeito, e espertíssimo, de modo que anda sempre em companhia de espias nossos.

O povo e muitos outros falam no por os esquadrões da cavalaria a pé com muito atrevimento e barulho crê que era bom deixar este negócio em esquecimento. O José Bonifácio mais lhe falará.

Recebo neste instante sua carta de Taubaté que muito lhe agradeço em lhe merecer a amizade que me prova sendo certamente todo meu ser, não falando das muitas saudades suas que eu tenho, pedindo-lhe que não fique mais ausente que um mês; o José Bonifácio lhe dirá o mesmo; a sua presença é muito preciso sendo São Paulo muito longe para dar prontas.

Receba mil abraços e as expressões do mais terno amor e amizade desta sua esposa que o ama ao extremo

Leopoldina
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P. 451

Carta a Maria Luísa
[315]

São Cristóvão, 8 de dezembro de 1826, às 4 horas da manhã

Minha adorada mana!

Reduzida ao mais deplorável estado de saúde e tendo chegado ao último ponto de minha vida em meio dos maiores sofrimentos, terei também a desgraça de não poder eu mesma explicar-te todos aqueles sentimentos que há tanto tempo existiam impressos na minha alma. Minha mana! Não tornarei a vê-la! Não poderei outra vez repetir que te amava, que te adorava! Pois, já que não posso ter esta tão inocente satisfação igual a outras muitas que não me são permitidas, ouve o grito de uma vítima que de tu reclama – não vingança – mas piedade, e socorro do fraternal afeto para meus inocentes filhos, que orfãos vão ficar, em poder de si mesmos ou das pessoas que foram autores das minhas desgraças, reduzindo-me ao estado em que me acho, de ser obrigada a servir-me de intérprete para fazer chegar até tu os últimos rogos da minha aflita alma. A Marquesa de Aguiar, de quem bem conheceis o zelo e o amor verdadeiro que por mim tem, como repetidas vezes te escrevi, essa única amiga que tenho é quem lhe escreve em meu lugar.

Há quase quatro anos, minha adorada mana, como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida pelo meu adorado Pedro. Ultimamente, acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento a meu respeito, maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte. Cadolino, que por ti me foi recomendado, e que me tem dado todas as provas da maior subordinação e fidelidade, é quem fica encarregado de entregar-te a presente, e declarar-te o que por muitos motivos não posso confiar a este papel. Tendo ele todas as informações que são precisas sobre este artigo, nada mais tenho a acrescentar, confiando inteiramente na sua probidade, honra e fidelidade.

Faltaria ao meu dever se, além de ter declarado ao Marechal e a Cadolino que tenho dívidas contratadas (ou contraídas?) para sustentar os pobres, que de mim reclamarão algum socorro, e para as minhas despesas particulares, não dissesse a ti que o Flach, de quem tenho muitas vezes escrito, é digno de toda tua consideração e de meu Augusto Pai, a quem peço-te remeter a inclusa.

Este virtuoso amigo, além de ter se sacrificado e comprometido a si mesmo e seus negócios para me servir, não desprezou meio algum para me procurar socorros. Peço-te por quanto tens de mais sagrado de lhe prestares todo o auxílio, de modo que ele possa satisfazer aquelas dívidas que por mim tem contraído. Recomendo este exemplo da mais virtuosa amizade. Cadolino te dirá qual foi o procedimento de Marechal para comigo. A Marquesa de Aguiar fica encarregada de dar a ti os mais miúdos detalhes sobre quanto diz respeito às minhas queridas filhas. Ah, minhas queridas filhas! Que será delas depois da minha morte? É a ela que entreguei a sua educação até que o meu Pedro, o meu querido Pedro não disponha o contrário. Adeus minha adorada mana.

Permita o Ente Supremo que eu possa escrever-te ainda outra vez, pois que será o final do meu restabelecimento.

L. S. B. Marquesa de Aguiar Escrevi.

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  1. Claudio Cazes
    fevereiro 3, 2013 às 15:03

    Eu acredito que as verdades, como estas, e muito outras, descritas nos livros, derrubariam de forma catastrofica, mitos, aos quais nos apegamos, deseperadamente. Diante da situação em que vemos noso Brasil, abandonado a sua propria sorte, seu bravo povo sendo tratado por aqueles em depositaram esperanças, como um nada, sente a necessidade profunda, de crer que alguma coisa temos de nobre., de honrado, de verdadeiro de patriota. O livro e embasbascante, deia a quem o lê profundamente conscio da humanidade – boa ou ma- de seus primeiros governantes. Ora eu me emociono ate hoje quando canto o Hino Nacional, quando revejo o filme “Independencia ou Morte” raro representante do orgulho nacional em filme, sinto que é ser brasileiro, mas tambem sinto a quantas engrenagens Nosso Pai usou para chegarmos ate aqui.,

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