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Resenha crítica do livro “O Espetáculo mais Triste da Terra: o incêndio do Gran Circo Norte-Americano”


Dia 17 de dezembro de 1961. 14h30 da tarde. Céu azul, calor senegalês, sol forte. Há exatamente 50 anos, o Gran Circo Norte-Americano preparava-se para apresentar seu espetáculo de matinê. Cerca de 3 mil pessoas aguardam o início do espetáculo. Lá fora, há pessoas na fila, que não conseguiram comprar ingressos. Algumas voltam desoladas para casa. Outras arrumam um jeito de entrar mesmo assim. Algumas pessoas se atrasam e não conseguem chegar a tempo. Outras simplesmente pressentiam que não seria recomendável ir ao circo naquele dia e desistiram de ir. O cenário estava armado para uma grande apresentação da companhia de circo, que pertencia a Danilo Stevanovich. Estava.

Já perto do final da sessão, durante a exibição dos trapezistas, surgiu o alerta de fogo. O estopim para que uma grande massa de espectadores se aglomerasse e tentasse sair a todo custo. Não havia saída de emergência. Havia apenas uma saída – por onde o público havia entrado no circo. Uma lona quente, feita à base de parafina (material inflamável) entrara em contato com o sol. Não havia extintores e as condições dos circuitos elétricos era precária. Mesmo assim, o circo foi liberado para funcionamento. Cerca de 503 mortos e aproximadamente mil feridos – entre queimaduras de terceiro grau em mais de 20% do corpo e queimaduras superficiais -, segundo estimativa oficial da Prefeitura de Niterói. Muitos padeceram depois de seríssimos problemas respiratórios. Crônica de uma tragédia anunciada? Possivelmente.

Mais do que contar a história de uma tragédia que abalou não somente a cidade de Niterói (então capital fluminense), “O Espetáculo mais triste da Terra –  o incêndio do Gran Circo Norte-Americano”, do jornalista Mauro Ventura (318 páginas, Companhia das Letras), traça um painel investigativo, com base em entrevistas e depoimentos pessoais, e farta documentação da época (jornais, revistas) sobre o incêndio que até hoje provoca sentimentos de memória e amnésia traumática (esquecimento compulsório) na maioria dos cidadãos niteroienses que viviam naquela época.

O incêndio que matou centenas de pessoas foi o trampolim que impulsionou a cirurgia plástica no Brasil, capitaneada pelo médico Ivo Pitanguy – que esteve á frente de centenas de intervenções cirúrgicas que atenderam a feridos daquele incêndio.  Interpretado pelo poeta Augusto Frederico Schmidt – autor dos discursos do ex-presidente Juscelino Kubitschek e inventor do slogan “50 anos em 5” – como um sinal da decadência moral do planeta, o trágico evento circense também é tido, por autoridades espirituais, como um resgate de uma época mais antiga ainda: remete ao ano 177 d.C., à cidade de Lyon, na região da Gália, quando espetáculos eram oferecidos a autoridades que visitavam a cidade. Numa das vezes, centenas de mulheres e crianças foram oferecidas aos leões (recém-chegados da África), para saudar a visita de Lucio Galo, famoso cabo de guerra que visitava a cidade. Logo, a interpretação espírita seria a de que os mortos do Gran Circo estariam resgatando dívidas passadas.

Coincidência ou não, o principal hospital de Niterói atualmente – o Hospital Universitário Antonio Pedro (HUAP), que na época era um hospital municipal – estava fechado, em greve e tomado por estudantes universitários, que reivindicavam melhores condições de trabalho para os médicos e a reposição de salários atrasados dos servidores, justamente no momento da tragédia. O hospital vinha fechado há meses e o impasse continuava até então. Foi necessário que acontecesse o incêndio do circo para que as três esferas governamentais – União, Estado e Prefeitura – entrassem em acordo para que o hospital fosse reaberto e investimentos fossem feitos.

O livro também exemplifica as inúmeras ações de solidariedade que imediatamente após a tragédia começaram a acontecer. Doações de sangue, de dinheiro, alimentos, de peles para cirurgias… o mundo se mobilizou e abraçou a causa. Embaixadas se prontificaram – a de Israel foi a primeira, duas horas após o incêndio -, doando o que podiam. Os EUA mandaram estoque de pele pela PanAm. O embaixador Lincoln Gordon interviu imediatamente para a liberação de recursos. O governo da Itália enviou sangue. O povo brasileiro foi solidário e o presidente João Goulart foi visitar pessoalmente, por duas vezes, as vítimas da catástrofe. O jogo Botafogo x Santos, no dia 03 de janeiro de 1962 teve parte de sua renda revertida em prol das vítimas do incêndio. Mas assim como a solidariedade aconteceu, também ocorreram furtos de pertences das vítimas internadas nos hospitais, alimentos desviados, colchões e aparelhos de ar-condicionado roubados por curiosos e servidores públicos nos hospitais – nada muito diferente do que acontece hoje.

Histórias pessoais se entrecruzam. Utilizando-se da História Oral –  amplamente utilizada pelo autor – emergem relatos de alegria (pelo alívio de se ter sobrevivido) e dor (pela perda de entes queridos). Famílias desfeitas, destinos interrompidos. Demonstrações de afeto, carinho, voluntariado – como o de Maria Pérola, professora e líder dos escoteiros, que não arredou pé do HUAP um só dia, entretendo crianças desenganadas. Solidariedade e engajamento de José Datrino, um comerciante e dono de uma pequena transportadora em Guadalupe, subúrbio do Rio, que já previra, tempos antes, que seria chamado para uma missão especial: confortar parentes de pessoas mortas no incêndio. O nome Datrino corresponde à Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) e que algum tempo depois seria conhecido como “Profeta Gentileza”. O autor do livro desmente a informação que logo caiu no senso comum, de que Gentileza tinha perdido toda a família no incêndio do circo – fato que não corresponde à verdade. A família de Gentileza acompanhou sua conversão à prática do Bem. Ele nos convida a uma parada no modo de vida que nos entrechoca, na compulsão urbana que nos fragmenta.

A cidade de Niterói, cenário do livro, protagonizou cenas de horror com o incêndio do circo. Meses antes, já havia perdido seu prefeito – Roberto Silveira, para muitos, possível candidato à Presidência da República no futuro. E ano passado, foi palco de mais uma tragédia: o soterramento de moradores do Morro do Bumba. Acaso ou destino?

Por fim, a investigação que Mauro Ventura faz, aponta indícios variados. Mostra a imediata culpabilização de Adilson Marcelino Alves – o Dequinha, principal suspeito. Mas não descarta, com base em depoimentos de personagens presentes naquela tarde, que possíveis acidentes podem ter contribuído para que as chamas lambessem a lona do Gran Circo Norte-Americano e causassem a morte de centenas de inocentes.

Mais do que contar uma história, “O Espetáculo mais Triste da Terra” é o relato de microhistórias de solidariedade e de doação. Vidas que convergem e se alinham diante do inesperado. Uma grande lição de vida e ao mesmo tempo, um alerta para que tragédias não se repitam.

Assistam o trailer de divulgação do livro:

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Categorias:Uncategorized
  1. Heloisio Marchiori
    dezembro 19, 2011 às 12:53

    Já li sobre o incêndio do circo. Pelo que entendi é que o mesmo fora criminoso. Alguém ateou fogo na lona.

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