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Quando a lógica é a burla


Significado de Burlar

v.t. Enganar, lograr, fraudar.
Ludibriar, escarnecer.
Fazer zombaria com; motejar de.

Sinônimos de Burlar

Sinônimo de burlar: despojar, enganar, esbulhar, espoliar, falsificar, fraudar,lesar, trampolinar, trapacear e usurpar.

SER REPUBLICANO

“Ser republicano é crer na igualdade civil de todos, sem distinção de qualquer natureza.
É rejeitar hierarquias e privilégios.
É não perguntar: “Você sabe com quem está falando?”
É responder: “Quem você pensa que é?”
É crer na lei como garantia da liberdade.
É saber que o Estado não é uma extensão da família, um clube de amigos, um grupo de companheiros.
É repudiar práticas patrimonialistas, clientelistas, familistas, paternalistas, nepotistas, corporativistas.
É acreditar que o Estado não tem dinheiro, que ele apenas administra o dinheiro pago pelo contribuinte.
É saber que quem rouba dinheiro público é ladrão do dinheiro de todos.
É considerar que a administração eficiente e transparente do dinheiro público é dever do Estado e direito seu.
É não praticar nem solicitar jeitinhos, empenhos, pistolões, favores, proteções.
Ser republicano, já dizia há 346 anos o jesuíta Simão de Vasconcelos, É NÃO SER BRASILEIRO.

(José Murilo de Carvalho, artigo publicado em O GLOBO – 06/07/2009)

O verbo “burlar”, embora faça parte do dicionário de língua portuguesa e seja de conhecimento de grande parte dos brasileiros, infelizmente é esquecido (ou forjado) nas atitudes do dia-a-dia, desde atitudes mais corriqueiras ou até mesmo em decisões que irão mexer com a vida (e o destino) de milhares de outras pessoas. Mas como explicar o “esquecimento” da palavra que é traduzida em ações maléficas às práticas cidadãs? Seria algo natural ou proposital?

Certamente que preciso retornar alguns séculos para tentar entender o processo, já que muitos atribuem a prática da burla – ou o “jeitinho brasileiro” (expressão carinhosamente romantizada por muitos anos em nossas terras, como forma de explicar uma peculiaridade genuinamente brasileira, como se fosse uma marca registrada, digna de ser louvada) – à nossa colonização portuguesa, em dissonância com a colonização de outros povos, como os anglo-saxões, por exemplo. Vamos então recorrer à nossa história, para tentar ao menos entender o fenômeno?

Tivemos por estas bandas os degredados – criminosos comuns em Portugal, políticos e/ou religiosos (Cristãos-Novos, judeus fugidos da Inquisição), punidos pelas Ordenações Filipinas em atos que desagradassem à Coroa Portuguesa, geralmente enviados às colônias que formavam o Império Português, nos sécul0s XVI e XVII, para trabalhos dificultosos. O Brasil foi originalmente povoado por degredados e muitos povoados foram fundados por aqui. Vasco Fernandes Coutinho transportou, em 1536, cerca de 70 degredados para fundar o Espírito Santo; em 1549, Tomé de Sousa, governador geral, levou cerca de 500 degredados para estabelecer a nossa primeira capital do Brasil Colônia – Salvador; Cosme Fernandes de Sousa, um personagem misterioso, conhecido como “Bacharel da Cananeia” (ou simplesmente “Bacharel”), foi um cristão-novo degredado, abandonado no litoral sul de São Paulo em 1502, e que tornou-se por força das circunstâncias, chefe dos índios Carijó – era comum que degredados fossem enviados em missão de reconhecimento do território e contato inicial com os indígenas -, tendo liderado em 1533 um ataque para saquear e destruir a colônia de São Vicente – alguns historiadores, entretanto, atribuem a chegada de Cosme antes mesmo de Pedro Álvares Cabral ter desembarcado por aqui; e por fim, um degredado conhecido como João Ramalho, que foi deixado no sul do Brasil em 1511, provavelmente tendo naufragado na região. Aliou-se aos índios tupiniquins do Planalto de Piratininga, tornando-se chefe deles. João Ramalho ajudou os portugueses na mesma São Vicente em 1532 e tempos depois, em São Paulo de Piratininga, em 1550. Oficialmente os primeiros degredados portugueses a morar no Brasil foram Afonso Ribeiro e Luís de Moura, que por ocasião do descobrimento do Brasil, ficaram por estas terras, a mando de Pedro Álvares Cabral, vivendo com os índios, com o objetivo de colher informações sobre o cotidiano.

Importantes nomes de nossa literatura e muitos historiadores também consideram que os degredados foram responsáveis pela má-formação de nossa gente, e que vem dos tempos idos coloniais a necessidade de se ter vantagem em tudo, o desregramento e a burla ao cumprimento das leis. Imaginemos um degredado, ao se tornar o chefe de uma tribo indígena, conforme mencionei acima: ele formulava as leis do povoado – leis que valiam para todos, com exceção a ele mesmo -, diferentes das leis portuguesas e se tornaram, ao longo de gerações, senhores de engenho, fazendeiros, negociantes, pequenos artesãos, construtores e lavradores. Para Oliveira Lima (1867-1928), importante escritor e membro-fundador da Academia Brasileira de Letras, tendo escrito importantes livros sobre a História do Brasil, o Brasil teria sido povoado pela pior escória vinda de Lisboa.

E assim a prática da burla inaugurou-se no Brasil Colônia e atravessou séculos de nossa história. Na corrida pelo ouro, no século XVII, tivemos mais um exemplo da lógica burlesca, com a sonegação do ouro extraído nas Minas Gerais e com o santo do pau oco (segundo o imaginário popular, o santo do pau oco era, nas regiões mineradoras brasileiras e durante o período colonial, um símbolo do contrabando do ouro em pedra ou pó ou de diamantes, ou seja, as imagens devocionais eram utilizadas como esconderijo aos olhos do fisco. Governadores, escravos e clérigos estavam envolvidos nesse tipo de contrabando). Durante a escravidão, as diversas leis feitas “para inglês ver” – conhecidas como “leis que não pegam”. Em 1826, a Inglaterra firmara um acordo com o Brasil, para a extinção do tráfico de escravos em três anos – o que não foi feito. Como a Inglaterra era grande parceira comercial do Brasil e os banqueiros ingleses bastante poderosos e financiavam a produção do café com empréstimos e concessões, e davam início à industrialização do Brasil, o Governo Regencial, na figura do Regente Diogo Feijó, promulgou a lei Eusébio de Queiroz em 1831, que determinava que todos os escravos que entrassem no país seriam livres e que quem participasse do contrabando seria severamente punido. A eficácia dessa lei não ultrapassou 1837 – infelizmente. Os comentários que circulavam pela Corte eram que a tal lei era “para inglês ver”. Essa expressão tornou-se então histórica, sinônimo de leis feitas apenas para constar, apenas aparentes, já sabendo-se que não serão cumpridas (como por exemplo, um código de ética para servidores estaduais, feito por um tal Cabral após a descoberta de um escândalo envolvendo seu nome, que não foi nem cumprido por ele mesmo).

O Brasil, que para muitos foi descoberto (o termo mais apropriado, seria “Achado”, mas tudo bem) em 1500, para outros tantos foi inaugurado em 2003, com a ascensão do primeiro presidente da República vindo das classes menos favorecidas. Um operário chegava ao poder, e tal qual “teoria do bom selvagem”, que via os índios como detentores de uma natureza moral pura, modelo que devia ser assimilado pelos ocidentais, acreditava-se que a pureza do nordestino que viera dos grotões e vira de perto a miséria, a fome e os males do país seria o remédio eficaz, antídoto contra os males de nossa civilização no novo milênio. Foram necessários apenas dois anos para a constatação de que a histórica burla se fazia presente, com o Mensalão – a maior crise política sofrida pelo governo Lula, entre os anos de 2005 e 2006, que se caracterizou como um esquema de compra de votos de parlamentares. Vale dizer que tal prática, onerosa aos padrões éticos que todos almejamos, não foi apenas privilégio daquele governo, tendo ocorrido, em escala menor, também em governos estaduais – em Minas Gerais, no governo do tucano Eduardo Azeredo, e em Brasília, no governo de José Roberto Arruda, que ficou conhecido como “O Mensalão do DEM” (Democratas).

Com tantos exemplos vindos do andar de cima, não podemos cobrar que a população dê exemplos de conduta. Afinal, se um parlamentar rouba, se um presidente da República, numa atitude extremamente anti-republicana tergiversa (principalmente quando, primeiro pede desculpas à população pelo Mensalão, depois diz que o escândalo foi dinheiro de campanha não contabilizado – Caixa dois – e que todos sempre fizeram, e recentemente afirmou que o tal Mensalão nunca existiu, politizando o malfeito, a ponto de equipará-lo a uma invencionice golpista da oposição) e se o Poder Judiciário não pune a quem de direito, também se sente no direito de transgredir leis, de não respeitar regras, o cidadão comum também não vê motivo para praticar delitos. Se um presidente da República, ainda cumprindo mandato (ou já tendo deixado o posto), desrespeita leis eleitorais para promover seus candidatos e o Poder Judiciário faz vista grossa ou cobra multas simbólicas (5 mil reais), é pedir muito que a população também não desrespeite até as coisas mais banais.

Só que a burla, por outro lado, ainda é capaz de indignar e de surpreender àqueles que ainda crêem e trabalham por um país melhor – afinal, seguindo a evolução, é pra frente que se anda. E causa espanto e tristeza, ao mesmo tempo que decepção, ver que reina um certo pragmatismo nesse pensando de que “todos sempre fizeram, então é normal, vamos também fazer o errado”. Na política, é frustrante ver um partido político, que sempre “gritou” contra a corrupção e possui uma bonita trajetória, desde sua fundação (nas hostes do movimento operário, no ABCD paulista, no final da década de 1970 e início dos anos 1980, quando o Brasil ainda vivia sob a tutela de um regime de exceção, tornar-se um partido igual aos outros, igual àqueles que criticava, igual aos políticos que antes ia para as ruas exigir o impeachment e hoje das as mãos a essas mesmas pessoas, fazer alianças (o chamado Presidencialismo de Coalizão), e inaugurar, no Brasil, o Capitalismo de Estado.

Certamente que tais práticas não foram inauguradas por este partido, muito pelo contrário. Como foi citado no início deste texto, desde a Colônia convivemos com tais práticas. E outros partidos políticos também usufruíram disso. E até mesmo na ditadura – Estado Novo e Regime Civil-Militar – as práticas nocivas de corrupção, de conluios políticos, de agressão à ética, entre outros, estiveram presentes. Portanto, se serve de consolo, não ISSO não foi inaugurado em 2003 (pelo menos isso). Mas é de se estranhar que após a chegada ao poder, o vinho tenha virado água.

Há algum tempo, ainda durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, um importante jornal estadunidense mencionou em um artigo que a corrupção no Brasil seria endêmica – natural e indissociável à cultura brasileira. A reação de nossa classe política, e também da população, no geral, foi de surpresa e indignação, quase gerando um incidente diplomático entre os dois países. Manifestações do tipo “Yankees, Go Home!” afloraram, bandeiras dos EUA foram queimadas – como na última visita do presidente Obama ao Brasil, em março de 2011, numa atitude xenofóbica que chegou a beirar o ridículo. Estava errado o jornal dos EUA?

Talvez falte ao brasileiro realmente ter vergonha de si mesmo. E principalmente admitir que sua natureza é corrupta. Por que, para nós, o corrupto é sempre o Outro, nunca somos nós. E a corrupção acontece não somente quando há dinheiro ou tráfico de influência envolvidos. Dizemos sim à corrupção quando somos pragmáticos (“A vida é assim mesmo, o político X, Y ou Z não foi o primeiro e nem será o último a roubar”); quando fazemos o GatoNET da rua para assistir TV a cabo; quando colamos na prova; quando pegamos transporte irregular pra ir ao trabalho ou voltar pra casa – kombis, vans, que mesmo “legalizadas”, não respeitam uma lei de trânsito sequer, avançam sinais de trânsito, param fora do ponto, correm feito loucos, e aí vem o pensamento pragmático mais uma vez dizer “as kombis e vans são um mal necessário, já que não há ônibus” – e aí por esse prisma, imaginamos que “se amanhã não houver kombis e vans, teremos a carroça para nos conduzir” – e daí por diante -; quando fazemos vista grossa aos malfeitos políticos, seja “por que ganhamos algo em troca do político que rouba – tijolo para a laje, comida pra família ou emprego público pro parente” -, seja porque “a queda do político do partido Y irá beneficiar o partido da oposição, que não suportamos” (e aí colocamos a simpatia pessoal, o interesse pessoal em um nível acima ao interesse público).

Falta justamente isso: olhar um pouco para nossas atitudes e pensar grande, pensar no Todo, imaginar que vivemos numa sociedade, num país e que a vida não se restringe ao nosso próprio habitat. Pensar coletivamente ao invés de querer benefícios pessoais – “Pra quê vou ajudar os desabrigados da região serrana, se eu posso desviar comida e cobertores pra minha casa?”.

Falta à gente ter escrúpulos, ter vergonha e pensar que, se hoje vivemos num país com uma crise moral e ética, amanhã será muito pior.

Talvez amanhã seremos degredados, numa praia deserta, num continente, sem que sequer tenhamos consciência disso.

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Categorias:Uncategorized
  1. junho 12, 2012 às 0:57

    Gostei muito do texto, Fabrício. Muito pertinente num momento como este. O povo sempre foi muito passivo e não sabe o poder que tem. Não podemos cruzar os bracos e achar que ta tudo certo. Temos direito a serviço publico de qualidade (saúde, transporte, ensino etc), pois pagamos caro por isso. E o que recebemos? Migalhas…e nada fazemos! 2012 é mais um ano de eleição e vamos, mais uma vez, tentar mudar nosso destino. Abraço, Giselle

  2. junho 14, 2012 às 10:03

    Fabrício, parabéns pelo texto. Mais uma vez percebemos a função transformadora da educação, num país onde a ética deontológica dá o tom da Constituição num contexto neoliberal, portanto, um descompasso, agravado pela educação de qualidade comprometida por políticas públicas ineficazes que mantém grande parte da população à margem destes debates. Bjs! Ana Paula Magno.

  3. Augusto Martins
    outubro 16, 2012 às 20:39

    Adorei o seu blog,amo história,tanto que estou fazendo faculdade de Relações Internacionais e adorei ainda mais esse texto sobre a burla.Fala exatamente como o povo se comporta infelizmente, essa natureza corrupta cultural desde os tempos coloniais e que hoje ainda persiste.

  4. outubro 17, 2012 às 21:41

    Belo texto, Fabrício. Sintetiza a trajetória do espírito de ser mais esperto. De ganhar transgredindo. O não limite entre o meu e o seu. O desrespeito ao direito alheio. O vale tudo pelo interesse próprio. Infelizmente tudo isso veio sendo exacerbado na última década. A egolatria aliada à subvalorização do ensino e da cultura, o descaso pelas leis para atender aos objetivos do poder, tudo isso contribuindo para o empobrecimento da nação no seu conteúdo de valores éticos. Temos nós o papel de reverter o quanto possível essa tendência para a história futura registrar a recriação de um povo através do reconhecimento dos seus erros, dos seus vícios, de sua herança de farsas transmudada por quem detém o discernimento entre o que fomos, o que somos e o que podemos ser.

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