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A biografia histórica da esfinge que transformou o Brasil


“Sou contra biografias”

Com essa frase enigmática, dita por Getúlio Dornelles Vargas ao jornalista Rubens Vidal, repórter da extinta Revista do Globo, em 1950, o escritor cearense Lira Neto (autor das biografias do ex-presidente Castelo Branco, do escritor José de Alencar, da cantora Maysa e do religioso Padre Cícero) inicia um grande desafio: escrever “Getúlio (1882-1930): Dos anos de formação à conquista do poder”, Companhia das Letras, 629 páginas” – a biografia histórica daquele que pode ser considerado o maior político brasileiro do século XX – e por que não, uma de suas figuras mais emblemáticas daquele século. Trata-se de tarefa árdua e paradoxal escrever sobre este gaúcho nascido em São Borja, em 1882, quando o Império brasileiro vivia o apagar das luzes dos salões da monarquia. Apelidado de “esfinge” – durante e após seu desaparecimento em 1954 -, Vargas foi uma espécie de camaleão que se metamorfoseava, com ambivalências e contradições que só quem pôde acompanhar sua trajetória política e pessoal – ou estudá-lo – é capaz de “tentar” decifrá-lo.

Nas entrevistas que concedeu durante a campanha de lançamento do livro, Lira Neto problematizou o fato, ao querer mostrar que Getúlio não foi vários – o revolucionário, o ditador e o democrata -, mas apenas um político que soube adequar-se aos distintos contextos que a sociedade brasileira vivenciou na passagem da monarquia à República, na transformação de um Brasil agrário para um país que começava a se tornar urbano, graças à industrialização que começava a dar seus ares ainda na Primeira República – que muitos ainda insistem de chamar de “República Velha”, num sentido pejorativo que desmerece um período que também correspondeu a significativas transformações em nossa sociedade. O “camaleão” ambulante, que alistou-se no Exército (embora não tivesse nenhum tino para a carreira militar), tornou-se advogado, pertenceu à hegemônica oligarquia do Rio Grande do Sul, inspirada nos ideais de Júlio de Castilhos e posteriormente Borges de Medeiros (que ocupou, durante 25 anos a presidência daquele Estado), tornou-se deputado estadual, depois deputado federal, ministro da Fazenda de Washington Luís até ser Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, traduz a passagem de um modelo político saturado pela política do café-com-leite (alternância entre São Paulo e Minas na Presidência da República) para um período que representou o fim da predominância das oligarquias e a maior atenção às lutas sociais, inaugurando uma era que duraria quinze anos, até culminar, em 1945, com sua deposição do governo e o auto-exílio em sua fazenda em São Borja.

Um dos inúmeros desafios enfrentados pelo autor foi o de que, apesar de existirem inúmeros trabalhos (livros,  dissertações de mestrado e teses de doutorado) sobre Getúlio Vargas, não há nenhum que corresponda à categoria de “biografia histórica”, stricto sensu. Oficialmente, Vargas teve três biografos, os quais abrira seus arquivos pessoais:  André Carrazoni, Paul Frischauer e Leal de Souza. No entanto, os três produziram, não biografias, mas hagiografias, em plena vigência do Estado Novo. Numa linha oposta, em 1977 – na plenitude do regime de exceção inaugurado em 1964 -, Affonso Henriques escreveu “Ascensão e Queda de Getúlio Vargas”, desconstruindo a personagem. Tal fato comprova  a imagem negativa que Vargas tinha para os militares pós-1964, que se lançaram numa campanha para torná-lo desimportante para o Brasil, pormenorizando sua figura política. Numa espécie de biografia do governo Costa e Silva, escrita pelo general Jayme Portella, em 1979, este não chama Getúlio Vargas pelo nome e sim como “O Ditador”. Perfis biográficos também foram escritos sobre ele, porém, sem o detalhismo e a meticulosidade que uma biografia merece ter, amparada de fontes primárias e material de pesquisa.

Admitindo que seria impossível contar a vida de Vargas em apenas um livro, o autor tomou a acertada decisão de fazer uma trilogia. Este primeiro volume aborda os anos de 1882 (ano de nascimento da personagem) e 1930 (quando a Revolução é vitoriosa e Getúlio assume o governo). O segundo volume será lançado no próximo ano e irá narrar os quinze anos em que Vargas esteve à frente da Presidência, onde comandou o Governo Provisório, foi ditador durante o Estado Novo, vivenciou a Segunda Guerra Mundial – onde soube como ninguém utilizar de estratégia política para angariar, por exemplo, a construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda – e foi deposto do poder pelos generais Pedro Aurélio de Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra – que viria a ser o próximo Presidente da República. Por fim, em 2014, anuncia-se o terceiro e último volume, que abrange o exílio em São Borja, a volta à Presidência, sob o voto popular e seu desaparecimento em 24 de agosto de 1954, quando suicida-se com um tiro no coração, jogando seu cadáver à veemente oposição, numa das mais fantásticas manobras políticas já vistas.

O que torna este primeiro volume um trabalho edulcorado e digno de reconhecimento foi a quantidade de arquivos, fontes primárias e livros sobre o período pesquisados, num trabalho que tomou dois anos e meio do autor. E justamente por fazer a abordagem de um período praticamente desconhecido pelo grande público – salvo os especialistas -, que foi a infância, a adolescência e sua passagem como liderança política no Rio Grande do Sul. É como se Getúlio Vargas estivesse preso a uma cápsula do tempo, onde fosse identificado apenas como ditador entre 1937 e 1945 e à madrugada de 23 para 24 de agosto de 1954. Fora essas temporalidades, é como se a “esfinge” estivesse obscura, desconhecida e inatingível aos olhos dos leitores. Por isso a dificuldade que o autor encontrou em transpor barreiras e responder a uma pergunta que o leitor faz logo na primeira página do livro: “O que esperar de uma biografia sobre Getúlio Vargas?”

Dois dos grandes momentos do livro correspondem, sem dúvidas, à elucidação de possíveis crimes os quais Vargas teria participado na adolescência. Apoiado em fontes e autos policiais da época, o autor desmente por exemplo o boato plantado por Carlos Lacerda, de que Vargas teria assassinado o estudante paulista Carlos de Almeida Prado, em Ouro Preto, e também o índio Tibúrcio Fongue, em Inhacorá (RS).

O autor reafirma o verdadeiro sentido que a biografia adquiriu, após a retomada do gênero pela historiografia, de não apenas ater-se aos acontecimentos das grandes personagens históricas, mas de procurar relacioná-las ao contexto político, social e econômico de uma época, com atenção à sua rede de sociabilidades e entendendo seu papel como parte de uma estrutura. E não podemos deixar de destacar a importância que duas personagens “periféricas” tiveram na vida política de Getúlio: João Neves da Fontoura, deputado federal e líder da bancada gaúcha no Congresso, e Oswaldo Aranha, primeiro como secretário de governo estadual, depois como presidente interino do estado do Rio Grande do Sul. Através deles, é possível entender como aconteciam as ações políticas que levaram a Revolução de 1930 estourar a ganhar milhares de adeptos no Brasil.

Uma biografia para ler e entender o Brasil da Primeira República, promissor de profundas transformações e rumo à modernidade.

Trailer do lançamento do livro, pela Companhia das Letras:

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