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Salve Jorge! O centenário do nascimento de Jorge Amado e sua importância para a História do Brasil


Em 2012 comemoramos o centenário do nascimento de um dos maiores escritores que a Bahia produziu. Escrevo Bahia, ao invés de Brasil, porque nenhum outro estado brasileiro sintetiza tanto as obras de Jorge Amado (Itabuna, 10 de agosto de 1912 — Salvador, 6 de agosto de 2001) como a Bahia – tida inclusive como um lugar místico, real e ao mesmo tempo realístico ao longo de mais de 32 livros, cinco mil personagens e 30 milhões de publicações vendidas. Considerado o escritor brasileiro mais lido e publicado até o surgimento do “fenômeno” Paulo Coelho, Jorge Amado teve suas obras editadas em 52 países e traduzidas em mais de 29 línguas. Sua literatura pode ser dividida em duas fases: a primeira, quando inicia em 1931 com a publicação de País do Carnaval – seu primeiro romance – e termina em 1954, quando não faz mais parte da militância partidária ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e escreve Subterrâneos da Liberdade. 

É importante compreender a importância de Jorge Amado não apenas com base na contribuição que trouxe para a literatura de nosso país, mas também dentro de uma perspectiva histórica: desde a exaltação de uma religiosidade afro-brasileira, até a relação que ele teve com o PCB, sendo um ardoroso combatente da ditadura do Estado Novo, por exemplo. Só é possível entendermos sua trajetória se compreendermos o que a militância política representou para ele.

Sintonizado com o realismo socialista, implementado pela intelligentsia soviética, que foi um conjunto de diretrizes formais, estilísticas e poéticas na União Soviética entre 1930 e 1953 – ano da morte de Joseph Stálin -, os livros de Jorge Amado cumpriram o papel de fazer da arte um agente transformador dos aspectos políticos e sociais, sendo muito mais do que mera diversão ou passatempo. Principalmente quando essa característica é observada no momento de bipolarização do mundo, entre comunistas (URSS) e capitalistas (EUA), o escritor deveria fazer suas escolhas históricas. A obra que pode sintetizar esse momento é Subterrâneos da Liberdade, escrita no exílio e justamente resume o objetivo do escritor, que era o de difundir a estética comunista dentro dos ideais do realismo socialista, construindo uma visão positiva da URSS e criticando as mazelas do capitalismo.

Essa visão crítica da primeira fase de Jorge Amado é bastante contestada por historiadores, já que para muitos, o viés comunista só poderia ser observado a partir de 1945, quando se elege deputado federal pelo Partidão – sendo cassado em 1948, quando o partido caiu novamente na clandestinidade. Afinal, no período entre 1931 e 1945 não vemos o proletariado em suas obras, mas sim personagens marginalizados – prostitutas, pescadores, capoeiras, entre outros.

Como um bom tempero baiano em acarajés e abarás, a idéia dos historiadores novamente pode ser polemizada, quando observamos a presença de personagens impregnadas com o conceito de socialismo: Pedro Bala, em Capitães de Areia (1937), que consegue transpor o obstáculo do desespero através de um sentido de coletividade, por exemplo – coincidência ou não, durante a Era Vargas, este livro foi censurado e queimado em praça pública. O próprio Cavaleiro da Esperança (1942) – uma proposta de Jorge Amado em escrever a biografia de Luís Carlos Prestes, forjando a glorificação de um herói socialista -, fora encomendada pelo PCB. 

Além de abordar a questão da miscigenação das raças e o sincretismo religioso, as obras de Jorge Amado continuam atuais, quando discutimos as diferentes culturas brasileiras e suas discriminações. O Brasil miscigenado aparece exaltado, por exemplo, em Jubiabá (1935), na figura de um pai-de-santo que é herói e mestiço.

Gabriela, Cravo e Canela, publicado em 1958 é certamente um de seus livros  de maior repercussão internacional e marca o início da segunda fase de sua carreira literária, focada no romance de costumes e na construção da brasilidade, mas sem se esquecer com a denúncia social e as classes populares. Os heróis de Jorge Amado lembram muito a personagem de Carlitos: são chaplinianos e estão longe de serem inseridos dentro de uma estrutura. São figuras afirmativas – o negro Balduíno, em Jubiabá; Quincas Berro D´Água. Gabriela e Teresa Batista Cansada de Guerra, entre outros. Embora o traço dominante seja o de um pessimismo, a afirmação é da esperança e da alegria. Em Gabriela, o escritor expõe as incongruências e contradições da sociedade, suas hipocrisias e deslealdades.

Se a cidade de Salvador é a torre de babel de suas obras, num ambiente onde mais profundamente fez a integração das diferentes culturas e etnias, consciente da importância da miscigenação cultural, Ilhéus e Itabuna representam o poder e riqueza da indústria cacaueira, com seus coronéis do roçado, jagunços vingadores e trabalhadores do campo, que mais do que apenas sintetizarem um mandonismo local, eram fio condutores do retrato da sociedade arcaica do agreste baiano, onde a mulher era submissa ao marido, devia viver para ser usada e abusada, e quem trazia idéias modernas da capital e “do estrangeiro” não era visto com bons olhos. O elemento erótico, pó conseguinte, deve ser observado sob um viés libertário e não detrator da feminilidade. São Jorge dos Ilhéus e Cacau – este, seu segundo romance publicado – são os livros que melhor retratam a sociedade baiana que vivia da colheita do cacau.

Jorge Amado construiu uma brilhante carreira como escritor, mas sofreu preconceito nos meios acadêmicos, já que vender muitos livros era encarado com certas restrições: popularidade nem sempre representava qualidade, na opinião dos nobres intelectuais. Sua eleição em 1961 para a cadeira número 23 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é José de Alencar, talvez tenha sido uma tentativa de reparo ao preconceito sofrido.

No centenário de seu nascimento, é importante relembrar suas obras e personagens que já entraram para o panteão da nossa literatura. Mas certamente é um autor que merece um estudo mais aprofundado sobre sua produção e o contexto em que suas obras nasceram.

Especial – 100 anos de Jorge Amado:

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