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#OiOiOi – “Água demais mata a planta”


“(…) Tudo que é muito é demais 
Peço me perdoe a redundância 
Entrelinhas só quero lembrar 
A terra fértil um dia se cansa 
É uma questão de esperar 

Relógio que atrasa não adianta 
O remédio que cura 
Também pode matar 
Como água demais mata a planta”

O trecho do samba “Minha Filosofia”, de autoria de Aluizio Machado, retrata a dor-de-cotovelo, um amor incompreendido e a promessa da volta por cima daquele que se deixou enganar. Pode também ser o exemplo das coisas que, em excesso, incomodam.

Confesso que sempre tive uma relação de amor e ódio com as novelas. Assisto, gosto muito… Daí quando começa a ficar chato, passo a não assistir, não suporto nem ouvir falar mais. Com Avenida Brasil não tem sido diferente. Comecei assistindo, gostei muito da idéia central da novela – expor a “nova classe média brasileira” (representada pela ascensão social das classes C e D), com personagens muito próximos da rotina do povão. E com uma vilã que conseguiu fugir a todos os estereótipos: Carminha.

Entretanto, de três semanas pra cá, Avenida Brasil tem se tornado insuportável pra mim. Simples: para onde quer que eu olhe, sinta e respire, só ouço e leio sobre essa novela. Nas redes sociais, nos sites de internet, nos jornais, em bares/restaurantes, até campanhas políticas têm sido delimitadas pelo horário de exibição da novela. É o assunto campeão nos Trendings Topics no Twitter e mais comentado no Facebook. Até um comício na campanha do candidato Fernando Haddad (PT), em São Paulo, em que a presidente Dilma fará um discurso, foi adiado pra “depois da novela”, pois poderia ficar vazio – “as pessoas estarão todas assistindo o último capítulo da novela”. É uma overdose – pior que injetada na veia, pois pra qualquer lado, não há pra onde correr: “Quem matou Max?”; “Que fim merece Carminha?”; “Nilo merecia morrer?”. “E Monalisa, vai morar com Tufão?”.

Sinceramente, acho que todo tipo de diversão é válida. As pessoas trabalham o dia todo, usam transporte precário, têm aborrecimentos com chefes, filhos, família… a novela é um escape para aliviar as tensões, rir com situações engraçadas e ver a si mesmo retratado na TV, através de outros personagens. Só que a partir do momento em que diversão se transforma em fixação, vira alienação. Quando só se fala num assunto, aí sim, vira motivo de preocupação – embora pouquíssimas pessoas se dêem conta disso. E quando acaba a novela? Fica um vazio. Até o momento em que outra novela começa. E volta tudo a ser como antes.

Cabe a pergunta: tendemos naturalmente a nos “alienar”, em qualquer situação? Ou a alienação que sorrateiramente nos é ministrada (ou imposta), obedece a princípios lógicos de dominação da sociedade – utilizando um raciocínio Orwelliano no melhor sentido da palavra. Será que, enquanto fixados na teledramaturgia, não relevamos o obsceno aumento do IPTU – mesmo o prefeito reeleito tendo prometido não aumentar – a segundo plano? Será que desviamos o foco do julgamento do mensalão (ou, se preferir, Ação Penal 470)? Ainda existem campanhas políticas acontecendo, parte do país vive o segundo turno das eleições. E quando as famílias sentam à mesa para jantar, às 21h, discutem como foi o dia de cada um ou fazem um balcão de apostas para saber “quem matou Max?”. E os problemas da sociedade – a violência, a água encanada que não chega até a “comunidade”, a próxima favela a ser pacificada, a situação precária do Hospital Geral de Bonsucesso – localizado, coincidentemente, às margens da… Avenida Brasil? São questões discutidas?

Antes que eu termine o texto, quero fazer uma declaração bombástica: quem matou o Max foi o autor da novela – tal qual acontece em todo folhetim que tem princípio, meio e fim. Apesar da maioria não distinguir que para tudo na vida é necessário moderação.

PS – O livro “UPPs, direitos e justiça: um estudo de caso das favelas do Vidigal e Cantagalo”, da pesquisadora Fabiana Luci de Oliveira (Editora FGV, 200 páginas) nos apresenta um dado emblemático: 55% dos moradores do Cantagalo e 50% do Vidigal não sabem mencionar sequer um direito garantido pela lei brasileira. Mas estão muito interessados em saber “Quem matou Max”.

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Categorias:Uncategorized
  1. Alessandra
    outubro 17, 2012 às 14:48

    É isso aí, igual ao Big Brother, todo mundo se viciou nessa novela, se identificou. Fácil distrair a massa com bobagens …

    • outubro 17, 2012 às 14:52

      Muito bem lembrado sobre o Big Brother, Alessandra. É outro exemplo de nossa sociedade, que adora fofocar e pensar futilidades. Bjs e obrigado pelo comentário.

    • Nadia
      outubro 18, 2012 às 22:31

      Com a maior tradição no mercado televisivo, as novelas da Globo fazem um sucesso enorme! Seus personagens retratam cenas do cotidiano vivido por nós brasileiros e isso faz a população se identificar e começar a acompanhar cada dia mais a trama!

  2. Giselle Freire Barreto
    outubro 17, 2012 às 22:01

    Concordo com você, Fabrício. Mas se não fosse essa novela, seria qualquer outra coisa. O povão não se interessa por política, ou não entende, ou tem preguiça de pensar. E as autoridades se valem disso para pintar e bordar. Ainda vamos penar muito até a sociedade saber se valorizar e não querer receber somente “esmolas”. Beijos

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