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Relatos de Videla no início da 8a Quinzena de Literatura Latino-Americana


Dando início à 8ª Quinzena de Literatura Latino-Americana – desta vez com a temática da Ditadura Militar -, a Livraria da Travessa do Shopping Leblon foi palco de um debate com Ceferino Reato, jornalista argentino que já foi redator de Política Nacional do Clarín, correspondente internacional da agência ANSA em São Paulo e assessor de imprensa da embaixada argentina no Vaticano. Reato é também autor dos livros “Disposición Final: La confesión de Videla sobre los desaparecidos” (Sudamerica, 316 páginas) e “Operacion Primicia: El ataque de Montoneros que provoco el golpe de 1976” (Sudamerica, 392 páginas), sendo o primeiro o mais recente e justamente foco principal em que girou o debate.

O autor conseguiu entrevistar o ex-presidente Jorge Rafael Videla, general que comandou o golpe de estado na Argentina em 1976 e permaneceu no poder durante cinco, dos sete anos que durou o regime de exceção naquele país. Videla, hoje com 87 anos, permanece preso pelos crimes que cometeu durante o tempo em que ocupou a presidência: tortura de presos, morte e desaparecimento de cadáveres – sem contar o seqüestro de cerca de 400 bebês (apenas 107 bebês recuperados) – em sua grande maioria entregues a famílias de empresários do setor de imprensa que apoiaram os militares, policiais e oficiais do Exército. A entrevista do ex-presidente pode ser considerada uma proeza, já que praticamente não há literatura, documentos ou memória produzida por ex-presidentes militares na América do Sul (no Brasil, há um livro sobre o ex-presidente Ernesto Geisel, fruto de entrevistas com Celso Castro e Celina D´Araujo, do CPDOC-FGV). Geralmente os ex-presidentes militares de Nuestra America ficam reclusos e não gostam de dialogar com o passado – que julgam ser uma temporalidade a ser esquecida – o próprio ex-presidente João Baptista Figueiredo foi autor da célebre e emblemática frase “Me esqueçam”, próximo de deixar o poder.

Ceferino Reato iniciou o debate lembrando que o período entre 1973 e 1976, que antecedeu o golpe, foi marcado por extrema violência naquele país, principalmente aquele em que o governo esteve nas mãos de Juan Domingo Perón e posteriormente, com seu falecimento, de sua vice-presidente Maria Estela Martínez de Perón (ou simplesmente Isabelita Perón), sua esposa, que o sucedeu. Segundo Reato, no ano de 1975 morreram cerca de 1.065 pessoas na Argentina (quase a média de 3 pessoas a cada dia), vítimas de assassinato político, fruto da duradoura guerra interna entre os sindicalistas e a Aliança Anti-Comunista. Naquele ano falava-se abertamente num possível golpe de estado, que para muitos, era questão de tempo acontecer. E justamente esse período ainda permanece obscuro para a sociedade e o meio acadêmico formado por historiadores e cientistas políticos, já que com o solapamento do regime de exceção e o conseqüente recrudescimento da democracia, em 1983, o então presidente Raul Alfonsín prometera investigar apenas os crimes cometidos durante a ditadura.

O clima de instabilidade nacional, com o freqüente embate entre os Sindicalistas Montoneros (partidários do Peronismo, na crença da instauração do Socialismo Nacional, que consideravam a evolução natural do Peronismo) e os Sindicalistas Trotskistas, justamente com a perseguição da Aliança Anti-Comunista (AAA) – financiada por El Brujo Jose López Rega (ministro do Bem-Estar Social e bastante influente junto à Presidente), somado à alta inflação e ao forte poder dos sindicatos levou ao golpe militar, que contou com o apoio de amplos setores da sociedade.

A “justificativa”, segundo Videla, seria que havia uma grande quantidade de pessoas que deviam morrer para que a subversão fosse derrotada. Para isso, num momento em que as algumas ditaduras de sudamerica já se inclinavam para a distensão (caso do Brasil, em que Geisel promoveu uma distensão lenta, gradual e segura), e com a eleição do Democrata Jimmy Carter (defensor dos direitos humanos), a Argentina preferiu promover a tática do desparecimento de presos políticos e elementos subversivos, de modo a não ser comparada à ditadura do vizinho Chile, que assassinava e chocava a opinião pública mundial. Videla não queria ser como Pinochet, que reprimia violentamente e era criticado mundo afora. Por sinal, ambas as ditaduras – argentina e chilena – tinham ótimas relações diplomáticas, atuando em regime colaboracionista – só interrompidas com a Guerra das Malvinas, que foi um ponto de inflexão entre os dois países, por causa do apoio do Chile à Inglaterra.

Durante os cinco anos em que foi presidente, o general Videla ocupou nos dois primeiros anos (1976-77) o comando de Chefe do Exército. Foram os anos mais duros da ditadura, tendo o ex-ditador assumido que “entre sete e oito mil pessoas foram mortas”. As organizações de direitos humanos discordam e preferem acreditar no total de 30 mil mortos, entre 1976 e 1983. Reato considera o número de 30 mil exagerado, motivado mais por interesses políticos.

1976 foi o ano de apogeu do Exército argentino. Praticamente não houve protesto popular diante do golpe. Videla era católico e contou com apoio de vários setores da Igreja, inaugurando uma espécie de “golpe fundacional”. Dez anos antes os militares já haviam ocupado o poder, e quando Perón foi eleito, em 1973, promoveu a anistia daqueles que foram perseguidos. Para Reato, embora empresários e a sociedade civil apoiasse o golpe, o regime instaurado a partir de 1976 foi o mais militar entre todos os que ocorreram na América do Sul, já que o Exército foi tomado de amplos poderes e percebeu que o golpe era fundamental para a “limpeza” da sociedade. A mesma sociedade que referendou seus poderes, mostrou de concordar com o regime, indo as ruas e sentindo orgulho da nação, seja com a conquista da Copa do Mundo de 1978, realizada na Argentina – que obliterou o terror interno, a censura e os direitos políticos cassados -, seja com o sentimento de ufanismo e patriotismo exacerbados com a solidariedade da população na Guerra das Malvinas, contra o inimigo – a Inglaterra. Quando o general Leopoldo Galtieri, então presidente, discursou na sacada da Casa Rosada, em abril de 1982, declarando a entrada da Argentina na guerra, foi aclamado por uma multidão que se aglomerava na Plaza de Mayo – a mesma, que ano após ano vê suas Mães (que já viraram avós) protestarem contra o desaparecimento de seus filhos.

De sorte que nas batalhas de memórias produzidas, o historiador deve se posicionar cautelosamente diante do que é falado. O depoimento de Videla, embora seja de inestimável valor para entendermos o ponto-de-vista daqueles que ocupavam o poder (já que geralmente temos os relatos dos “vencidos” – guerrilheiros, presos políticos, vítimas da ditadura etc – merece ser observado talvez como a possibilidade de reabilitação do idoso general, hoje preso numa cadeia militar em Buenos Aires.

Uma das perguntas que fiz a Reato foi sobre o apoio de peronistas a Videla, na ocasião do golpe. O mesmo confirmou a informação, confirmando que o colaboracionismo existiu – tal qual o ocorrido em Vichy, na ocupação nazista, quando milhares de franceses apoiaram Hitler. Muitos peronistas hoje, que se mostram contrários ao ocorrido em seu país, durante a ditadura, não apenas apoiaram o golpe, como também entregaram colegas de luta. É uma zona cinzenta da sociedade, pouco explorada, mas que seleciona suas memórias conforme lhe convém.

Disposición Final é um excelente relato de um ex-presidente hoje preso e condenado a morrer na prisão. Talvez só peque por não abordar a questão da Operação Condor – pacto político-militar feito entre os países do Cone Sul – Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. Mas serve para lembrar que os generais e autoridades que participaram dos horrores contra a democracia precisam tirar seus esqueletos dos armários.

Hoje (23/10) os debates prosseguem, sobre a “Ditadura chilena: Pinochet”, com Heraldo Muñoz (embaixador do Chile na OEA e autor de “À sombra do Ditador”).

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