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A ditadura chilena e as várias faces de Pinochet


“Não era um dos melhores alunos. Intelectualmente era muito limitado, mas era muito político”.

A definição dada por Heraldo Muñoz, político, diplomata, embaixador do Chile na ONU e autor de “À Sombra do Ditador: memórias políticas do Chile sob Pinochet” (Zahar, 396 páginas) à respeito de Augusto Pinochet, ditador que governou com mão-de-ferro o Chile por 17 anos é bastante emblemática, já que descortina a personalidade do Comandante Supremo da “Revolução” que depôs – de forma trágica –, em 11 de setembro de 1973, o então presidente Salvador Allende – que fora eleito pelo voto popular para ocupar o Palácio de La Moneda, sede do governo, em Santiago. Pinochet é apresentado como um general militar, com longo tempo de caserna e com uma invejável ficha de serviços prestados ao Exército chileno, porém sem ser brilhante e digno de destaque até as vésperas do golpe em que bombardeou o local onde Allende se encontrava, resistindo aos militares.

Muñoz tem histórico no processo de luta pela redemocratização no Chile, sendo um de seus líderes. Foi ferrenho opositor ao regime de exceção imposto por Pinochet e após a volta da democracia, chegou a ser secretário de governo do ex-presidente Ricardo Lagos, entre 2000 e 2006. Na ocasião do golpe, era Supervisor Nacional de Armazéns do povo – era responsável por levar alimentos às comunidades carentes do país. Foi perseguido pela ditadura, andou armado, em esconderijos e algumas vezes foi para os EUA – numa delas, fez Doutorado em Relações Internacionais e se tornou amigo de Condoleezza Rice – Secretária de Estado americano no governo de George W. Bush.

Ontem, no segundo dia de debates da 8ª Quinzena de Literatura Latino-Americana – evento realizado na Livraria da Travessa do Leblon – pudemos assistir o relato de Heraldo Muñoz – ele mesmo um sobrevivente do regime ditatorial chileno – e também entender o panorama social, político e econômico daquele país, por uma pessoa que esteve em ambos os lados: na oposição a Pinochet e depois como governo, lutando pela justiça aos crimes e excessos cometidos pelos militares. O debate “A ditadura chilena: Pinochet” atendeu esse propósito.

Salvador Allende, que tentara anteriormente ser presidente por três vezes, foi eleito na quarta eleição que disputou. Mas não foi uma eleição fácil. Pertencendo a uma coalizão de partidos – Partido Socialista, Partido Comunista, Partido Radical (social-democrata) e Partido da Esquerda Cristã (saído da Democracia Cristã), foi eleito com aproximadamente 33,5% dos votos – no Chile não havia segundo turno – não tendo maioria no Congresso. Seu principal rival era o Partido da Democracia Cristã, que tinha mais da metade do Congresso. Mas no cenário mundial, sua eleição representou um marco político: foi o primeiro presidente socialista eleito democraticamente, entre todas as nações.

Sua principal proposta era fazer a transição do modelo político para o socialismo, pela via pacífica, sem pegar em armas. Esse grande feito, porém, ganhou tons polêmicos, já que desde o primeiro minuto após sua vitória eleitoral, enfrentou a forte oposição dos EUA. É importante entender o cenário mundial daquele momento: início dos anos 1970, o mundo polarizado entre EUA e URSS. E a América Latina já tinha um país socialista: Cuba. A amizade entre Allende e Fidel – este chegou a presentear o presidente chileno com um fuzil – adicionou mais pólvora num estopim que estava prestes a explodir. Para os americanos, que não admitiam ter “perdido” La Batalla de Girón – a invasão da Baía dos Porcos – em Cuba, em abril de 1961, era questão de honra naquele momento, em 1973, não deixar que uma nova “Cuba” surgisse na América do Sul – e ainda mais ocupando uma posição estratégica, com uma invejável extensão litorânea de mais de 6 mil quilômetros voltados para o Oceano Pacífico e sendo o maior produtor de cobre – estratégico para a indústria bélica – do mundo. Para Richard Nixon, então presidente dos EUA, garantir que o Chile não se tornasse socialista – e não repetir o “erro” cometido por Kennedy, em 1961, era questão de honra junto à opinião pública. Muñoz discorda da preocupação americana: “O Chile não pensava em se tornar um satélite soviético na América do Sul. Não pensávamos nisso. Tínhamos a preocupação com a Política Social. Não era de nosso interesse a aliança com potências externas”. Sobre a amizade de Allende com Fidel, o escritor afirma: “O que existia era apenas uma missão “romântica”, de solidariedade, com Cuba.”

Para Muñoz, a participação dos EUA no golpe foi importante, porém não foi decisiva, já que existia uma grande polarização interna no país, com muitas famílias divididas sobre os rumos tomados e, principalmente, havia quase um consenso entre os chefes das Forças Armadas – o vice-almirante Jose Toribio Merino e o comandante-chefe da Força Aérea, Gustavo Leigh – de que Allende precisava ser removido da Presidência. Um consenso até certo ponto, já que o general Carlos Prats, então Comandante-em-Chefe das Forças Armadas chilenas – e legalista -, renunciara ao posto por não concordar com o golpe. Pinochet, que assumira seu lugar, até então se mantinha neutro, apolítico e leal a Allende – fora por ele nomeado ao cargo. O convencimento a Pinochet, que aderisse ao golpe só ocorrera nos últimos instantes. Até mesmo Allende, quando se viu acuado em meio aos bombardeios ao Palacio de La Moneda, não tinha idéia de que seu antigo aliado já tinha cedido e estava do outro lado. Ao telefonar insistentemente a Pinochet e não encontrá-lo – o general, propositalmente havia “sumido” momentos antes ao bombardeio -, o presidente exclamou:

“Coitado do Pinochet! A essa altura dos acontecimentos, já deve estar preso!”

Segundo Muñoz, provavelmente o golpe teria sido realizado, mesmo sem ajuda dos americanos. Ao comparar a ditadura chilena com a que ocorreu na Argentina, Muñoz afirmou que Jorge Videla não tivera o mesmo apoio que Pinochet tivera dos EUA – certamente pela mudança na política externa americana, que a partir de 1977, com um Democrata ocupando a Casa Branca, pendeu pela preocupação com os direitos humanos.

Entretanto, se antes era arredio ao fato de participar de um levante contra seu próprio governo, após os acontecimentos de 11 de setembro a personalidade de Pinochet muda. O general sofre uma transformação e o golpe adquire uma conotação personalista. Para Muñoz, o general, de fato, tinha aspirações em transformar o país. E uma dessas transformações aconteceu na economia, com os Chicago Boys – um grupo de aproximadamente 25 jovens economistas chilenos, pós-graduados na Universidade de Chicago, que formularam uma política econômica com base no pensamento neoliberal, sob a cartilha aprendida com os ensinamentos do economista americano Milton Friedman. O Chile se modernizou, suas instituições ganharam respaldo e geraram confiança no mercado externo, alavancando exportações. Mas analisando com mais cuidado, os números não são tão animadores, já que entre 1972 e 1987, o Produto Nacional Bruto per capita do país caiu 6,4% em dólares constantes, caindo de US$ 3.600 em 1973 para 3.170 em 1993. A aplicação do modelo neoliberal à economia chilena se antecipou em dez anos ao mesmo modelo que seria implantado na Inglaterra por Margaret Thatcher. Mas mesmo com a economia entregue aos Chicago Boys, o cobre chileno continuou estatal – até hoje, 10% dos lucros das exportações do cobre são destinados ao Exército.

No plano internacional, as relações com os americanos começaram a azedar a partir de 1976, quando agentes secretos da Dirección de Inteligencia Nacional (DINA) – polícia política do regime chileno – assassinaram Orlando Letelier em Washington, a menos de um quilômetro da Casa Branca.

Quando comparados os regimes ditatoriais na América do Sul, inevitavelmente ainda persistem questionamentos sobre o total de mortos e desparecidos, vitimados pelas ditaduras. No Brasil, segundo o grupo Tortura Nunca Mais, foram 435 mortos; na Argentina o número estimado varia de sete a oito mil mortos – no debate de anteontem, Ceferino Reato, autor do livro sobre os relatos de Videla, rechaçou o número de 30 mil mortos, que considera exagerado e utilizado apenas como bandeira política; e no Chile? Segundo Heraldo Muñoz, graças ao acompanhamento realizado pela Igreja Católica chilena – “o melhor centro de dados sobre mortos e desaparecidos na América Latina” -, defensora dos direitos humanos no país, o número contabilizado aponta para 3.200 pessoas, entre mortos e desaparecidos, e aproximadamente 80 mil pessoas que sofreram algum tipo de tortura ou perseguição política. Vale um adendo: diferente do Chile, a Igreja Católica argentina foi partidária do golpe e mantinha relações amistosas com os militares argentinos.

No Chile atualmente há reparação às vítimas da opressão, mesmo que seja com um valor simbólico – em média, o equivalente a 200 dólares para cada pessoa. Mas mesmo assim, é emblemático perceber a questão da memória do regime, que ainda persiste. Ao deixar o governo, após 17 anos comandando o país, Pinochet foi eleito senador vitalício. Quando retornou ao Chile, extraditado, em março de 2000, viu uma multidão de pessoas que foram ao aeroporto recebê-lo – numa demonstração da existência das “viúvas” do regime, saudosistas do ex-ditador. E até hoje a questão da memória gerada pelo que o regime deixou é bastante dividida.

Logo mais será a vez de Geneton Moraes Neto debater “A ditadura brasileira: a fala dos quartéis”, narrando sua experiência com os depoimentos de generais brasileiros.

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