Início > Uncategorized > Resenha crítica: “Gonzaga: de pai pra filho”

Resenha crítica: “Gonzaga: de pai pra filho”


Em “Gonzaga: de pai pra filho”, mais uma vez o cinema acolhe o gênero biográfico. E o faz de modo competente, cumprindo o papel que deveria ser o de toda biografia e cinebiografia que se preza: mostrar a vida e a obra de personagens como eles de fato foram, sem os perigos daquilo que Pierre Bourdieu chamou de “ilusão biográfica”, ou seja, a armadilha que geralmente os biógrafos – e nesse caso do cinema, os diretores – caem ao tentar contar a história de uma vida de forma coerente e linear – com início, meio e fim -, como se os biografados “surfassem” numa superfície sem obstáculos. Eles podem também incorrer no erro do feitiço das fontes – que são pesquisadas para suas obras, ou seja, deixarem-se levar pelo material artístico produzido pelas personagens analisadas e imaginarem seres perfeitos, sem problemas cotidianos, que navegam em águas claras e calmas. Na tentativa de propor sentido e coerência a uma vida, escritores e diretores deslizam na utopia biográfica – conceito desenvolvido pelo sociólogo Jean-Claude Passeron – e inevitavelmente derrapam no clichê e apenas na verdade – e não na sinceridade.

As canções de Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido em Exu, sertão de Pernambuco , em 1912, mostram apenas uma parte da personalidade do músico apelidado de Rei do Baião – ele gravou mais de 200 músicas em toda sua carreira – e que se tornou uma das mais importantes e inventivas figuras da nossa música popular brasileira. O folclore transcendeu suas particularidades de tal forma que praticamente o artista acabou por ficar conhecido, obliterando o cidadão – numa época em que a mídia ainda não se preocupava com a vida privada dos famosos e os quinze minutos de fama ainda não eram via de regra na sociedade. O produto final de sua “vida” e obra acabaram reduzidos, de forma minimalista, ao sertanejo que sente saudades da terra natal, ao retirante que vai para a cidade grande em busca de melhores condições de vida – muitos fugindo da seca -, das disparidades existentes no Brasil de dimensões continentais.

E onde entra o indivíduo comum?

Entra nesta cinebiografia, cujo maior mérito é expor a figura humana de Luiz Gonzaga: a diacronia e sincronia de sua personagem, suas tensões e contradições – num movimento pendular ocorrido todos os instantes no filme, suas fraquezas, suas decepções, seus medos e anseios – ingredientes fundamentais para todos que se propõem a escrever (ou filmar) uma biografia. E algumas vezes, mesmo encontrando esses elementos em alguma obra biográfica, é muito difícil que eles sejam expostos de modo que não fuja ao pastiche, à sacralização do personalismo (principalmente quando o biografado ainda é vivo) e às dificuldades pasteurizadas – como, por exemplo, se faz a abordagem do nordestino que é oprimido pela fome e seca e vem tentar a vida nas grandes metrópoles.

Em “Gonzaga: de pai pra filho”, o tratamento dado à trajetória de “Gonzagão” é louvável e meritosa. O filme apresenta o artista, mas vai mais fundo: apresenta o humano. O ponto central da narrativa é justamente a relação conflituosa com o filho – Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior – o “Gonzaguinha”. Uma relação de tensões e distensões que permearam praticamente toda a existência de ambos. A ponto de ambos perderem, em certo momento do filme, suas referências – como pai e como filho. Ambos se detestam. Ambos se desconhecem. Mas ambos se amam. Sem dúvidas, um formidável cardápio para a psicanálise moderna, não é mesmo?

Por sinal, a narrativa é recheada de idas e vindas, o que é muito saudável para a proposta de expressão de um trabalho biográfico. A cronologia – nascimento, infância, maturidade artística e morte – é desprezada. A proposta do filme é promover o acerto de contas entre pai e filho – justamente o clímax da narrativa. O diretor e roteirista fazem isso com perícia e exímia pontualidade e coerência, sem tornar a história rápida ou arrastada. Não existem heróis ou vilões, apenas pessoas comuns, detentoras de sucesso, mas que ao saírem das luzes da ribalta se transformam e deixam a fama de lado. Não há demérito em promover o resgate do consenso entre os dois, já que a reconciliação de fato existiu. Mas até que isso fosse apresentado ao público, foram mostrados os íngremes itinerários percorridos pelos dois.

O legado deixado por ambos é irretocável. Parte da história do Brasil é pontilhada em suas obras e histórias pessoais – o pai participou da Revolução de 1930, foi mais um no fenômeno migratório do Nordeste-Sudeste e viveu o terror do banditismo social imposto por Lampião; o filho cantou e decantou o Brasil que sofria com a ditadura civil-militar, tornando-se uma das figuras exponenciais na luta pelos direitos humanos e pelo fim do regime de exceção. Dramas e conflitos pessoais que tornam esta cinebiografia elogiável.

Anúncios
Categorias:Uncategorized
  1. outubro 30, 2012 às 20:47

    Muito bom, Fabrício! O filme não idealiza nenhum dos personagens. Mostra quem são e as razões para tanto ressentimento. As músicas coroam o espetáculo! Bjos

    • outubro 30, 2012 às 20:49

      Valeu Giselle, obrigado pelo comentário. Fique ligada no blog, em breve novidades. Bjs.

      • Zeza
        janeiro 19, 2013 às 9:27

        Bom dia Fabricio.
        Concordo plenamente com a Cida, vc usou com muita clareza o que o filme mostra e de forma simples pode-se entende perfeitamente toda tragetória documentada.
        Pabéns!

      • janeiro 19, 2013 às 10:16

        Valeu, Zeza! Obrigado! Continue acessando o blog, vem mais novidades Por aí. Abraços.

  2. Pedro Henrique
    novembro 13, 2012 às 0:52

    Acabei de assistir o filme e confesso que me identifiquei em varias passagens dessa relacao entre pais e filhos. Muito bom.

    • novembro 13, 2012 às 11:47

      Prezado Pedro, obrigado por acessar o blog e ler a resenha. O filme nos apresenta questões muito importantes – e faz a gente repensar o quanto desgastadas estão as relações familiares de hoje, e o mais importante: que sempre é tempo de recuperarmos o tempo perdido. Grande abraço e continue acessando o blog.

  3. Cida Quelé
    novembro 13, 2012 às 11:25

    Fabrício,
    Desde o dia em que eu assisti este filme, fiquei “em processo de gestação” de uma resenha sobre ele, entretanto, por pura falta de tempo para sentar e ‘”dar a luz” ao meu texto, fui adiando este momento. E hoje, tenho a feliz sorte de encontrar, via Google, este seu texto, que traduz de maneira perfeita todos os meus sentimentos em relação a este filme espetacular. Agradeço aos céus por tê-lo encontrado, peço-lhe permissão para usá-lo em sala de aula, com os meus alunos.
    Parabéns!

    • novembro 13, 2012 às 11:40

      Prezada Cida, antes de mais nada, agradeço as nobres palavras. O filme realmente é muito bom e o diretor acertou em cheio na condução do roteiro, fugindo a clichês e abordagens tão comuns, quando biografias são levadas às telas. Permissão mais que concedida. Grande abraço e continue acessando o blog. :o)

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: