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A negação como sinônimo de alegria


filme NoEm 1988, após quinze anos no poder, o general-ditador (e dublê de presidente) Augusto Pinochet se viu obrigado, por pressões internacionais, a convocar uma consulta popular ao povo chileno, que deveria responder se desejava que o presidente continuasse comandando o país. Polarizaram-se duas correntes, que em apenas 27 dias de campanha, deveriam convencer o povo se preferia continuar vivendo num regime anti-democrático ou desfrutar de tempos mais arejados. Esta é a temática de “No” (CHI\FRA\EUA, 110 min), um filme de Pablo Larraín que conta com Gael Garcia Bernal como o jovem publicitário que trabalha pela campanha do “Não” e foi uma das peças mais importantes para mudar o panorama do referendo popular.

O filme (que ganha ares de documentário ao expor, com imagens verídicas e efeitos visuais semelhantes à TV da época) deverá concorrer ao Oscar 2013 pelo Chile, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, e expõe de forma exemplar as entranhas da luta pela restauração de um regime democrático no Chile, que com a morte do então presidente Salvador Allende, em 1973, e a imediata ascensão do general Augusto Pinochet ao comando supremo da “Revolução”, viu recrudescer nos anos posteriores o mais alto grau de terror daquele regime totalitário, com desaparecimentos, mortes, sequestros e torturas. Uma das mais cruéis ditaduras de Nuestra America, o Chile conheceu também o viés da modernização de sua economia – entregue aos cuidados dos Chicago Boys – um grupo de jovens economistas chilenos que estudaram em Harvard – que levou desenvolvimento àquele país. Por sinal, o principal argumento de defesa de continuidade da ditadura.

“No” expõe o ineditismo do embate do marketing político que praticamente muitos desconhecem, já que age apenas nos bastidores. Sempre imaginamos que as campanhas políticas se resumem aos candidatos – ou, no caso de um plebiscito, à disputa de idéias, argumentos e ideologias. Até mesmo com o retorno do período democrático, acabamos por simplificar o conceito de democracia. Pensamos esta como algo “pronto”, tal qual um produto que vemos na prateleira de um supermercado. A tirania, o regime de exceção, a ditadura, por conseguinte, seria substituída, de forma simplória e sem maiores danos, como se devolvêssemos o produto à mesma prateleira.

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Neste filme entendemos, porém, que a substituição de um regime político por outro é bastante doloroso – não somente nos danos causados a um povo pelos quinze anos de ditadura, mas também porque a tentativa de convencimento a uma sociedade que lida de forma dualística com sua memória não é tarefa fácil. Numa das cenas do filme, o grupo responsável pela campanha política do “Não” recebe informações de que cerca de 76% da população teria intenções de se abster das urnas, sendo que a maior parte do público feminino acima dos 60 anos deverá votar no “Sim”, idem para os jovens. Os dois públicos são pautados por um só sentimento: o medo. Então resolvem perguntar a uma senhora, da zona rural, se pretende votar no “Sim”. Ante o silêncio desta, chegam a conclusão que sim. Perguntam a razão dessa intenção e ela responde: “Porque meus filhos estão empregados, trabalham, têm casa própria. Não quero que, com os “comunistas” voltando ao poder, isso aconteça”. Perguntada sobre o regime de terror e violência implantado por Pinochet, com torturas e mortes, ela simplesmente arremata: “Isso é fato do passado que não vale a pena lembrar”.

O sentimento de medo é ambíguo. Mas existia no povo chileno que se via, de repente, infligido a optar pela continuidade da ditadura, economicamente viável, à despeito de todos os males que lhe impôs, ou o desconhecido, que se pautava apenas por reclamar o sequestro do Estado de Direito e a democracia. Era necessário então mudar a mensagem, reconquistar o poder não apresentando a dor e o sentimento de tristeza pelos quinze anos de sofrimento daqueles que perderam entes queridos, mas apresentar a possibilidade de um novo Chile, simbolizado por um arco-íris (que representava todos os partidos políticos juntos, unidos, pela democracia de idéias). Entre a própria equipe política que buscava a vitória do “Não” essa mensagem foi bastante questionada, já que para muitos, a imagem de alegria (que os publicitários queriam incutir na campanha) não era verídica e correspondia a uma afronta à memória de muitos que padeceram com a ditadura.

gael-garcia-bernal-em-cena-de-no-de-pablo-larrain-1350533288050_956x500O Four de Ases deste filme, além de expor as tensões de uma campanha de marketing político de forma direta e ácida, é retratar páginas de uma história que os livros escolares e tampouco a historiografia chilena e a literatura especializada ainda não contaram. Fomos conduzidos até aqui a imaginar a transição democrática chilena realizada de forma tranquila e serena, como se um dia o ditador acordasse e decidisse deixar o poder, passando a faixa para Patricio Aylwin, o novo presidente. Muito pelo contrário, o período foi marcado por lutas, combates e incertezas. Se a parcela mais idosa da população tinha medo de que a modernização e seus efeitos não fossem mais levados adiante com a vitória do “Não”, os jovens que desconheciam o golpe de Estado de 1973 eram bastante céticos com relação a vitória do desconhecido. Acreditava-se que sob qualquer resultado das urnas, prevaleceria a vitória e continuidade de Pinochet.

Interessante perceber ainda que uma campanha eleitoral não é estática, atua sob medida aos anseios dos eleitores. O próprio staff pró-continuidade do regime ditatorial passou a ter dúvidas de que fosse realmente possível vencer o plebiscito e passou a atuar de forma suja e perversa, intimidando integrantes da oposição. O filme é também uma boa oportunidade para que se desfaçam certos mitos, como por exemplo, de que a ditadura oprime o povo e é composta apenas por militares ou elementos das elites. Muito pelo contrário, a ascensão econômica do Chile gerou contentamentos e foi consentida e legitimada por amplos setores da população. E justamente foi esse o maior desafio da oposição: vencer não apresentando a bandeira da tristeza, da opressão, das lágrimas e do sofrimento do povo, mas a possibilidade de se viver num país moderno e democrático com mais alegria.

Alegria = arco-íris = pluripartidarismo = democracia

TRAILER OFICIAL DO FILME

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Categorias:Uncategorized
  1. Vianna
    janeiro 8, 2013 às 16:57

    GOSTEI: “O filme é também uma boa oportunidade para que se desfaçam certos mitos… vencer …a possibilidade de se viver num país moderno e democrático com mais alegria.”

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