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Dois dedos de prosa: Lira Neto, autor da biografia de Getúlio Vargas


Iniciando o ano de 2013, apresento uma novidade aos leitores do blog: a publicação de uma série de entrevistas que venho realizando com importantes figuras da História (professores, pesquisadores, historiadores), da Literatura, do Jornalismo e do campo das Artes e da Cultura, no geral. Para isso, nasce uma nova seção neste blog: a “Dois dedos de prosa”, dedicada justamente a pequenos bate-papos que lembram aqueles feitos numa mesa de bar, de forma bastante informal, com essas personalidades.

O convidado deste mês é o jornalista Lira Neto, autor das biografias do ex-presidente Castello Branco (primeiro presidente militar após o golpe de 1964), do escritor José de Alencar, do mítico e lendário Padre Cícero, e que no ano passado iniciou uma inédita trilogia biográfica sobre o ex-presidente Getúlio Vargas (o primeiro volume saiu ano passado, está previsto o lançamento do segundo volume este ano e o terceiro e último no próximo ano).

Lembro que no ano passado fiz uma resenha deste primeiro volume da biografia escrita por Lira Neto, que os leitores podem ler aqui.

Agradeço novamente ao Lira Neto pela excelente receptividade e boa vontade para responder às perguntas que elaborei.

Vamos à entrevista:

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1) O sr. é autor de algumas importantes biografias de personagens bastante conhecidos de nossa história: Castello Branco, Padre Cícero, Rodolfo Teófilo, José de Alencar… O que o motivou, em sua vida, a escrever biografias?

LIRA NETO – Sou jornalista de formação. Escrever biografias me possibilitou unir duas grandes paixões pessoais: o jornalismo e a história. Além disso, o exercício do jornalismo diário, devido às pressões naturais de tempo e de espaço para desenvolver a apuração de um determinado fato ou assunto, sempre me deixava em um estado de inquietação e de insatisfação permanentes. Os jornalistas têm cada vez menos tempo para apurar e menos espaço físico para escrever, nas páginas dos jornais e das revistas. Ao migrar para o livro, posso me dar ao luxo de me dedicar a uma “pauta” por vários anos, e, em vez de uma breve notícia, escrever mais de 500 páginas a partir do material colhido durante a investigação.

2) Porquê escrever uma biografia de Getulio Vargas?

LIRA NETO – Exatamente por aquilo que você bem salientou em sua resenha sobre o livro, publicada aqui no blog: apesar de ser o personagem mais importante da história brasileira, Getúlio ainda não fora alvo de uma biografia, no sentido estrito do termo.

3) Getulio Vargas foi uma das mais importantes personagens da vida pública brasileira, e que participou de momentos decisivos da nossa história, como a Revolução de 1930, o Estado Novo, sendo responsável por leis sociais fundamentais para a vida dos brasileiros, e que depois do período de reclusão em São Borja, retornou à vida política elegendo-se presidente de forma avassaladora, deixando o legado do trabalhismo para João Goulart, considerado seu herdeiro político. Até na hora de sua morte, fez uma jogada de mestre, jogando seu cadáver aos seus inimigos políticos. Alguns historiadores afirmam que Getulio foi um verdadeiro “camaleão”, por suas distintas fases (revolucionário, ditador, democrata, trabalhista). O sr. concorda com isso? Existe uma só definição para Getulio Vargas ou podemos afirmar que ele viveu fases distintas? Pergunto isso porque numa biografia histórica ocorre sempre o perigo da ilusão biográfica (termo criado por Pierre Bourdieu) – uma história de vida, regrada por acontecimentos cronológicos (início, meio e fim), a tentativa de se dar coerência a uma vida, principalmente porque inevitavelmente já sabemos o que irá acontecer com a personagem que biografamos.

LIRA NETO – Getúlio sabia combinar um extraordinário senso de oportunidade à uma elevada dose de paciência histórica, características que nos ajudam a explicar sua longevidade no poder. Ele conseguiu adaptar e ressignificar sua atuação pública dentro do complexo quadro de transformações políticas, econômicas e sociais que o próprio regime comandado por ele ajudou a implementar no país. Ele mesmo citava Darwin para dizer que vencer não significa derrotar o oponente, mas sim adaptar-se às circunstâncias e aos ambientes. Não há dúvida de que todo biógrafo corre o risco de cair na armadilha denunciada por Bordieu. Ou de fazer profecia do passado, isto é, de explicar um fenômeno a partir do que se sabe que irá acontecer posteriormente com o biografado. Procuro estar sempre atento a isso. Outro pecado comum é o do anacronismo, quando biógrafos procuram retratar e explicar determinado episódio com as lentes de hoje, sem levar em conta o contexto histórico da época retratada.

4) É comum, quando se analisa uma ditadura, as pessoas colocarem a culpa total no ditador. Portanto, para muitos, Getulio comandou com mão de ferro o Estado Novo, o povo foi bastante oprimido, não existia democracia e a censura do DIP era constante. O sr. concorda com essa tese de um Getulio totalitário e onipresente? O Prof. Jorge Ferreira, da UFF, escreveu em 1997 um célebre livro (“Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular – 1930-1945”), onde apresenta a participação popular no Estado Novo, muitas pessoas de baixa renda enviando cartas para a Secretaria de Comunicação da Presidência. Nessas cartas, trabalhadores comuns participavam ativamente, cobrando ações do presidente, pedindo coisas, elogiando… O que demonstra, de certo modo, uma ditadura legitimada. O que o Sr. pensa à respeito disso?

LIRA NETO – Não existe boa ou má ditatura. As ditaduras são, por definição, perversas. O Estado Novo, nesse sentido, foi uma das mais trágicas experiências da vida política brasileira. A grande questão que se coloca é justamente a de discutirmos se os inegáveis avanços da chamada Era Vargas nos planos social, econômico e político não poderiam ter se dado em um ambiente efetivamente democrático. E nos cabe pôr em evidência, também, os fatores históricos que nos ajudam a compreender a opção getulista por governos fortes, autocráticos, centralizadores. Creio que o primeiro volume da biografia, que narra a gênese política e os anos de formação do biografado — herdeiro do positivismo e do borgismo-castilhismo gaúcho — lança algumas luzes nesse sentido.

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5) Qual foi (e tem sido, já que o Sr. continua a escrever a biografia) a maior dificuldade encontrada para escrever a biografia de Getulio Dornelles Vargas?

LIRA NETO – Meu ofício de jornalista me traz a preocupação permanente com a recepção. Escrevo para um público heterogêneo. Tenho que provocar a reflexão dos especialistas e, ao mesmo tempo, despertar o interesse dos leitores não familiarizados com o assunto. Acredito, sobretudo, no poder da informação aliado ao prazer do texto.

6) O Sr. é um jornalista. Enfrentou alguma dificuldade (ou preconceito) no sentido de entrar numa seara onde existem alguns historiadores que não vêem com bons olhos jornalistas que escrevem esse tipo de livro? O que o Sr. pensa a respeito disso?

LIRA NETO – Creio que essa é uma discussão datada, bizantina. É verdade que ainda existem certos historiadores enclausurados nos próprios preconceitos e circunscritos ao monólogo acadêmico. Contudo, cada vez mais, cresce no ambiente universitário e acadêmico a percepção do gênero biográfico como algo relevante e essencial para o conhecimento histórico. Basta citar os nomes dos acadêmicos e especialistas que, até aqui, escreveram resenhas positivas a respeito do livro: Boris Fausto, Maria Celina D’Araújo, Marly Motta etc. Do mesmo modo, existe muita contrafação jornalística publicada sob o rótulo de biografia. Há certas obras que estariam mais à vontade nas prateleiras de romances históricos.

7) O Sr. considera o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva um herdeiro do getulismo? Caso afirmativo, porquê?

LIRA NETO – Lula era, originalmente, um antigetulista, pelo fato de não concordar com a tutela sindical imposta aos trabalhadores por Getúlio. Depois, ao chegar ao poder, passou a associar à sua imagem pessoal certos matizes do getulismo. Como diria Darwin, vencer é adaptar-se…

8) Como Getulio Vargas faria política no Brasil de hoje, na era da internet e das redes sociais?

LIRA NETO – Getúlio – lastreado no famigerado DIP – sabia realmente utilizar todo o poder de comunicação oferecido pela tecnologia disponível à época, especialmente o rádio e o cinema. Até para não cair em alguma espécie de anacronismo, não me aventuro a imaginar Getúlio no momento presente. São contextos diferentes e qualquer tentativa de tentar aproximá-los seria apenas isso, uma aventura.

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Categorias:Uncategorized
  1. Margarida S. Sousa
    janeiro 22, 2013 às 19:57

    Entrevista muito bem elaborada. Gostei bastante.

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