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Criatividade sem segredo


PauloBarros_Livro_TravessaLeblonÀs vésperas do carnaval de 2013, a literatura sobre carnaval recebeu mais um título: “Sem segredo: estratégia, inovação e criatividade” (Editora Casa da Palavra), de Paulo Barros, carnavalesco campeão do carnaval  com a Unidos da Tijuca em 2010 (“É Segredo!”) e 2012 (“O Dia em Que Toda a Realeza Desembarcou na Avenida para Coroar o Rei Luiz do Sertão”). Neste livro, engana-se quem pensa que se trata de um livro de auto-ajuda. Com base em sua experiência como carnavalesco – começou no Grupo de Acesso B, na Vizinha Faladeira, em 1994, e depois passou por diversas agremiações como Arranco, Paraíso do Tuiuti, Estácio de Sá, Unidos da Viradouro, Vila Isabel, Renascer de Jacarepaguá e Unidos da Tijuca -, Paulo Barros desfila seus carnavais ao longo de 188 páginas, ressaltando a importância do trabalho em equipe e algumas de suas características no ofício da criatividade.

Engana-se também quem imagina que o livro contém apenas suas experiências positivas. Nele, o ex-estudante, que largou pela metade o curso de Arquitetura e depois foi viajar pelo mundo como comissário de bordo da Varig, também dá exemplos de trabalhos que tiveram dificuldades para serem colocados em prática. O tom da narrativa é o de um bate-papo entre o autor e o leitor, onde ele conta para ele alguns segredos (não todos) de seus carnavais. Alguns de seus truques são revelados e o leitor poderá ter a noção do meticuloso trabalho feito nos bastidores da indústria do carnaval da criatividade de Paulo Barros. Um exemplo foi o trabalho de concepção e elaboração da idéia do que seria apresentado pela aclamada e premiadíssima comissão de frente da Unidos da Tijuca em 2010 – enredo “É Segredo!” -, quando conquistou seu primeiro título como carnavalesco: ao digitar no YouTube a frase “Troca de roupa”, descobriu um truque realizado por mágicos, em que consistia o ilusionismo na troca de roupa de atores num espetáculo. Resolveu que queria fazer igual, não sem antes descobrir qual era o segredo daquele truque. Para isso, viu (e reviu) o video dezenas de vezes até descobrir que o truque estava num detalhe que, os olhos não percebem por se aterem a outros elementos visuais. Entrou em contato com mágicos brasileiros conhecidos – que o desestimularam a levar a idéia à frente, por ser trabalhosa e perigosa na busca pela nota 10 dos jurados – e resolveu agir por conta própria com sua equipe de carnaval. Exigia relatórios diários do casal Priscilla Mota e Rodrigo Nery, responsáveis pela comissão de frente da escola, acerca do desempenho das moças que deveriam trocar de roupa em questão de segundos – num dia, recebia a informação que quatro haviam errado na performance, noutro dia, que três erraram -, até atingir o coeficiente zero de erros.

dna

No livro, Paulo Barros deixa bem claro que nunca quis fazer polêmica no carnaval. Segundo ele, seus trabalhos são feitos para o público que vai à Sapucaí. Seu propósito é interagir com as arquibancadas e fazer com que as pessoas não apenas assistam o desfile, mas também participem do espetáculo. Os destaques (pessoas que geralmente desfilam no alto de uma alegoria de escola de samba) não são o principal em seus carros, e sim a engrenagem – o “como funciona”. Reside aí outra descoberta do leitor: na concepção de uma idéia de alegoria, Barros primeiro imagina a tecnicidade dos elementos, em saber se irá funcionar, para depois sim, pensar na criatividade que usará ali.

Mas talvez por ter penetrado num universo de carnaval até certo ponto delimitado por grandes nomes no ofício, como Renato Lage, Rosa Magalhães, Max Lopes, Joãosinho Trinta (já falecido) -, a polêmica em torno de seu trabalho tenha sido inevitável. Por isso, Paulo Barros é, ao mesmo tempo, exaltado e odiado no mundo do carnaval. Admirado pela renovação que trouxe ao desfile das escolas de samba, por considerá-lo um espetáculo, adequando seu trabalho a este conceito; e odiado pelos tradicionalistas, que interpretam suas invenções como transgressoras da essência do carnaval. Um exemplo disso foi o desfile da Unidos da Viradouro, em 2008, com o enredo “É de arrepiar” (7o lugar), quando quis levar uma alegoria sobre o Holocausto. A idéia era mostrar a barbárie do nazismo, com judeus mortos e em cima, uma pessoa vestida de Hitler, imóvel e cabisbaixa, com expressão de vergonha. Sua intenção era, portanto, não exaltar o trágico episódio, e sim mostrar que aquilo nunca mais deveria se repetir. Reuniu-se com a Federação Israelita do Rio de Janeiro e expôs o que iria apresentar na Sapucaí. Recebeu o veto, pois segundo a interpretação da Federação, o Holocausto, mostrado de forma abrangente, seria uma afronta – só concordariam, se o Holocausto fosse apresentado como integrante da história judaica. Uma jornalista ainda inventou a notícia de que Hitler desfilaria sambando em cima dos mortos. Foi censurado e acabou levando outra alegoria, muito menos impactante.

vitalinoContestações e polêmicas à parte, é inegável, contudo, que Paulo Barros arejou o universo do carnaval. No livro, jaz a confirmação do que aqueles que acompanham os desfiles já sabem: o cinema é a referência dos seus carnavais. Por isso, é comum ver imagens de filmes conhecidos como “Indiana Jones”, “Avatar”, “Tubarão”, “Batman”, “Homem-Aranha” e até mesmo figuras do mundo pop, como Michael Jackson. O inusitado também é sua marca registrada: a alegoria do DNA o alçou ao estrelato do carnaval e fez que a Unidos da Tijuca, que não ganhava um carnaval desde 1936, fosse vice-campeã em 2004 (“O Sonho da Criação e a Criação do Sonho: A Arte da Ciência No Tempo do Impossível”). Em 2005, repetiu-se a dose com “Entrou Por um Lado, Saiu Pelo Outro… Quem Quiser Que Invente Outro”. Falando em DNA, o carro revolucionou o conceito estético de alegoria, dando vida a seus integrantes, mas essa idéia já tinha sido executada na Paraíso do Tuiuti, no ano anterior, no enredo sobre Portinari (“Tuiuti desfila o Brasil em telas de Portinari”), numa alegoria com espantalhos humanos.

Unidos da Tijuca

Mas vale ressaltar – e isso o livro faz muito bem – que não fosse sua experiência nos grupos de Acesso, com escolas abandonadas, mal-geridas e sem qualquer tipo de investimento, hoje não teria a visibilidade que possui. Por saber “tirar leite de pedra”, Paulo Barros amadureceu como artista e hoje assina carnavais que saem para a Sapucaí sempre favoritos ao título.

Hoje, quem quiser ganhar carnaval, tem que superar Paulo Barros. Mas que não quer abafar ninguém e só quer mostrar que faz carnaval também.

“O Sonho da Criação e a Criação do Sonho: A Arte da Ciência No Tempo do Impossível” (Unidos da Tijuca 2004)

“Entrou Por um Lado, Saiu Pelo Outro… Quem Quiser Que Invente Outro!” (Unidos da Tijuca 2005)

“Ouvindo Tudo Que Vejo, Vou Vendo Tudo Que Ouço” (Unidos da Tijuca 2006)

“É de arrepiar” (Viradouro 2008)

“É Segredo!” (Unidos da Tijuca 2010)

“Esta noite levarei sua alma” (Unidos da Tijuca 2011)

“O Dia em Que Toda a Realeza Desembarcou na Avenida para Coroar o Rei Luiz do Sertão” (Unidos da Tijuca 2012)

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Categorias:Uncategorized
  1. Tommy Beresford
    março 5, 2013 às 14:25

    Também li o livro e gostei bastante. Paulo é bastante talentoso e o livro tem várias passagens ótimas para quem, como eu, adoro todo o processo dos desfiles e os acompanha desde os anos 70.

    Um abraço
    Tommy
    http://cinemagia.wordpress.com/

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