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Faroeste Caboclo: um pouco da história contemporânea do Brasil


imageFinalmente chegou aos cinemas o tão aguardado filme “Faroeste Caboclo” – longa baseado na canção do mesmo nome, sucesso com a Legião Urbana – uma das bandas-síntese do BRock nacional dos anos 1980 no Brasil. “Faroeste Caboclo” foi composta por Renato Russo – vocalista e líder da Legião Urbana – em 1979, quando 10o Brasil ainda vivia numa ditadura militar, sendo de fato lançada apenas em 1987 no álbum “Que país é este?” Com 168 versos e aproximadamente 9 minutos de duração, a música é uma síntese do que foi a história contemporânea do Brasil. Analisada de modo mais profundo, é o retrato de uma geração, nascida quando o países já vivia no regime de exceção. Há vários ingredientes naquela poesia concreta de Renato Russo – e qualquer brasileiro que hoje tenha mais de 30/35 anos saberá reconhecer um pouco de Brasil ali: injustiça social, autoritarismo, racismo, dependência das drogas, desemprego, corrupção…

A trama gira em torno da história de três personagens, que se cruzam: João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira), Maria Lúcia (Isis Valverde) e Jeremias (Felipe Abib), respectivamente o migrante nordestino que vai tentar a sorte numa cidade grande – no caso, representada por Brasília, capital da República erguida há pouco tempo no meio do Planalto Central – , uma moça da alta classe média e filha de um pai autoritário, e o traficante de drogas, que é dono do pedaço no ramo de revenda de entorpecentes nas festas de rock do Cerrado. Há ainda outras personagens que acrescentam na qualidade da trama, como Pablo (César Troncoso) – um peruano que vivia na Bolívia e trabalha como traficante em Brasília – um senador e pai de Maria Lúcia (Marcos Paulo, em seus últimos momentos de vida, antes de falecer) e um policial corrupto e desonesto (Antônio Calloni).

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João é de Santo Cristo, uma cidade localizada no meio do nada, no árido sertão da Bahia. Injustiçado pela vida – assiste o assassinato do pai (Flávio Bauraki, outro excelente ator sumido das telas) e a morte da mãe, de fome, num ambiente inóspito e carregado de desesperança e miséria. É possível traçar um paralelo entre a trajetória de João e a de milhares de nordestinos que pegaram a estrada rumo às grandes cidades do sudeste, em busca de trabalho e ascensão social. Migrantes uma vez situados na esfera das selvas de pedra acabaram se rendendo à opção da marginalidade, diante das poucas possibilidades para subir na vida: analfabetismo, desemprego maciço e arroxo salarial – um cenário bastante similar ao do Brasil em fins do período ditatorial e início da redemocratização. Ou também os nordestinos que viajaram até Brasília para recomeçarem suas vidas na capital da República, sinônimo de um novo tempo de vida.

imageMaria Lúcia representa a juventude controlada, mas no íntimo desestimulada diante das possibilidades. Uma juventude que crescia tutelada, seguindo o roteiro traçado pelos pais. É a mesma geração de Renato Russo, que não sabe bem o que fazer diante das situações pré-estabelecidas até finalmente fazer suas escolhas. Maria Lúcia estuda Arquitetura e Antropologia e tem o sentimento de conformismo, embora deseje algum tipo de mudança. Há, ali, o conflituoso confronto de gerações, num embate silencioso e negociado com o pai, um importante senador (da ARENA?), intolerante, autoritário e racista, que não permite que João de Santo Cristo (negro, pobre e desempregado) freqüente sua casa. O senador é o estereótipo perfeito da elite e classe média que ainda hoje, faz distinção entre freqüentadores de elevador social e elevador de serviço. Representa aqueles que dizem não ser racistas, mas que no fundo não toleraria ver a filha (ou filho) casando com um afro-descendente. há um tanto de hipocrisia naquele ambiente, onde o pai chega em casa, se comunica com a filha por trás da porta e relaxa ouvindo jazz e sorvendo um uísque 12 anos com gelo.

Há também a corrupção e a violência policial – a polícia que faz distinção entre ricos e pobres, brancos e negros. A justiça – até hoje – é para alguns. A corrupção reina – sempre reinou – na ditadura e nos tempos modernos. Ao assistir a performance de Antônio Calloni como o policial violento e corrupto, não há como não dissociá-lo de figuras como Mariel Mariscott (Scuderie Le Cocq – uma espécie de esquadrão da morte, criada em meados dos anos 1960 para vingar a morte do detetive Milton Le Cocq, e que atuou nas décadas seguintes) e Sérgio Paranhos Fleury (delegado que comandou a Operação Bandeirantes – OBAN – e perseguiu inimigos da ditadura militar no Brasil). O policial do filme talvez seja uma mistura dos dois – e o retrato de muitas autoridades que ainda hoje são policiais e têm o sentimento de boçalidade presente.

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“Faroeste Caboclo” é, portanto, o retrato não apenas do microcosmo de Brasília nos anos 1970, mas também o cenário de uma sociedade conflituosamente moderada, onde a conformidade e a esperança caminhavam juntas, lado a lado. Certamente, a mesma sociedade que hoje, 34 anos após a letra da canção ser concebida, ainda se pergunta: “Que país é este?”

FAROESTE CABOCLO – TRAILER OFICIAL EM HD:

FAROESTE CABOCLO – LEGIÃO URBANA:

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  1. Sergio Milani
    maio 31, 2013 às 18:11

    Ótima crítica, o post ficou perfeito.. parabéns, Fabrício.

  2. Guilherme Armond
    maio 31, 2013 às 18:47

    Muito bom.

  3. LUIZ FERNANDO
    maio 31, 2013 às 20:09

    excelente Fabrício

  4. Juliana Amorim
    junho 3, 2013 às 8:54

    Muito bom, Fabrício!
    Estou louca para assistir ao filme. Desse final de semana não passa.
    Não vivi essa geração (nasci em 1987), mas consigo ter uma ideia! Talvez queria ter vivenciado, por mais conflituosa que foi…

    • junho 3, 2013 às 9:42

      Valeu pela resposta, Juliana. Você nasceu justamente no ano do lançamento do disco “Que país é este (1978-1987)”. Muito obrigado por visitar o blog. Beijos.

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