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Modismos, preconceitos e outras variantes: a questão do Outro


imageSou terminantemente contra todo e qualquer preconceito de raça, credo ou classe social. Pra mim, o direito de ir e vir é sagrado. Contudo, vejo que há muita hipocrisia (de ambos os lados), em algumas argumentações – favoráveis ou não – ao “Rolezinho”. Mesmo que sejamos contra e juremos que vamos renegar isso, o preconceito está dentro de cada um de nós de todas as formas, em todos os pormenores. A sociedade nos impõe isso, desde a infância. Quando você escolhia quem iria jogar no seu time, na escola, você apontava para o mais forte, o mais hábil, o mais alto etc; Você selecionava suas amizades com base em afinidades: quem não se “encaixava” no seu grupo, seja por não haver sintonia ou por ocorrer um pré-conceito definido sobre aquela pessoa (“mora longe”, “fala muito alto”, “anda em más companhias” etc). E até mesmo os já batidos clichês – que nem por isso deixam de ser reprováveis – raciais (“branco não deve casar com negro” – e vice-versa).

Venho acompanhando muitas postagens nas redes sociais e fico impressionado com a quantidade de gente que de uma hora pra outra se tornou defensora dos fracos e oprimidos. Não que isso seja errado: temos que buscar sempre a justiça em nossas ações e atitudes. Mas esses modismos que vez ou outra acometem as redes sociais me causam preocupação e ligam o sinal de alerta para o fato de que o mundo tende a se tornar chato e politicamente correto demais.

Quem nunca sentiu medo ao andar sozinho numa rua e de repente ver pessoas estranhas vindo na sua direção – e não guardou o celular, procurou esconder a carteira na mochila, ou mudou de calçada para “driblar” a “ameaça”? (Atenção, mais uma vez: não estou dizendo que ISTO é correto, estou dizendo que costumamos fazer isso por instinto – e o instinto é uma possibilidade que vai além da nossa consciência).

Quem nunca pensou duas vezes diante de um convite para uma festa localizada num bairro com grande incidência de assaltos? (“A festa acabará tarde, tenho um compromisso no dia seguinte, cedo”, ou “não tenho companhia pra ir”, ou “não tenho condução pra ir” – essas são as desculpas mais comuns).

As manifestações de junho do ano passado foram ótimas. Revelaram um “gigante adormecido” – que espero que não tenha voltado a dormir. Mas também vimos muita desordem promovida por pessoas que não tinham a menor consciência de protesto com base em propostas, reivindicações. Gente interessada em quebrar tudo o que via pela frente – e o mais grave: roubar. É até compreensível (veja bem: compreensível neste caso não significa que seja correto) ver bancos depredados – afinal, o banco, enquanto instituição financeira, representa a síntese da ordem capitalista. Mas qual o propósito de se roubar a loja das Havaianas, localizada no Terminal Garagem Menezes Cortes? Ou a loja de chocolates Brasil Cacau – situada no mesmo terminal? (Veja aqui o link da matéria:  http://youtu.be/7pBr0hWqdqA)

imageAções do tipo criaram uma espécie de trauma no meio comercial. Hoje é comum vermos lojas prontas para fechar a qualquer momento. Qualquer brincadeira entre amigos numa praia, dependendo do grau de animação – pode ser entendida como um arrastão. Então ficou assim: vivemos numa sociedade que parece pronta para desconfiar de tudo a qualquer momento.

Quando veio a Anistia, em 1979, ocorreu um fenômeno semelhante, no sentido das disputas de memória. Era senso comum ver uma certa aura de romantismo nas esquerdas (era tempo dos livros “Os Carbonários”, de Alfredo Sirkis, e “O que é isso, companheiro?”, de Fernando Gabeira – romanceados ao extremo e que traçavam uma imagem do guerrilheiro como herói de uma geração, uma pessoa com sonhos e que no fundo, lutava por uma democracia – será que era uma democracia mesmo, que buscavam? Então era isso: de uma hora pra outra, todo mundo passou a ser “de esquerda”. Até mesmo quem lutara contra os movimentos de guerrilha, tinha um ídolo de esquerda para chamar de seu. Havia também aqueles que denunciavam a luta armada e a partir de 1979, virou “santo do pau oco”: gente que apoiou o golpe e de repente se dizia o ser mais democrático do planeta. Indo mais longe, franceses que colaboraram com os nazistas na República de Vichy – ou aqueles que constituíam a chamada zona cinzenta da sociedade, um segmento obscuro e indefinido quanto ao fato de ter resistido ou colaborado com os nazistas – após 1945 se diziam parte da Resistência. O golpe empresarial-militar não pode se resumir apenas a um simplório “Vilões (militares) x Oprimidos (luta armada)”.

A questão de se ver negros e escravos de forma homogênea, como oprimidos, é tema espinhoso e bastante controverso. Graças a historiadores contemporâneos, muito se avançou nas pesquisas para o entendimento de que negros (libertos) e escravos não eram ingênuos, bobos e oprimidos. Pode parecer loucura, mas houveram escravos que após terem suas alforrias, tornaram-se… donos de escravos. Ex-escravos que tinham estabelecimentos comerciais e também perseguiam escravos fugidos, que torturavam e sacrificavam seus escravos,  companheiros de cor. Lá nas várias Áfricas (utilizo propositadamente, no plural), os reis e rainhas africanos capturavam os habitantes e trocavam por alimentos, armas… Mas ainda hoje persiste uma ideia do negro oprimido desde a escravidão. Decerto estou longe de questionar todo o passado doloroso vivido por escravos, submetidos a todos os tipos de castigos. Mas questiono, sim, o tratamento dispensado a esta questão como sendo homogêneo – novamente o senso comum.

Vejo muita gente que se diz “de esquerda” – mas que está longe de levar uma vida de oprimido pelo sistema – levantar certas bandeiras só porque precisa estar antenada aos modismo e ser aceita pela sociedade.

Provavelmente os mais intransigentes e radicais me chamarão de direitista reacionário, playboy, mauricinho, escravocrata e membro de seitas racistas do sul dos EUA, após ler esse texto. Nenhuma novidade. Uma vez fui chamado de “nazista” por um cidadão pertencente a uma ONG afro, só porque eu disse que entendia o escritor Monteiro Lobato ter escrito textos de cunho racista, justamente pelo fato do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo ter feito parte de uma sociedade das décadas de 1920 e 1930, onde temas como “Eugenia”, “Branqueamento da população” e “racismo” eram pulsantes e faziam parte de um contexto de época. Será realmente uma pena caso me entendam dessa forma, pois não busco aqui, de modo algum apoiar qualquer tipo de apartheid ou exclusão social. Mas fico preocupado em ver tanta intolerância e preconceito justamente nas pessoas que denunciam…. intolerância e preconceito – sempre atribuídos ao Outro, nunca a si mesmo.

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