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Sociedade de guerrilha: de onde viemos? Para onde vamos?


I. O FATO

menor 1Na madrugada do dia 31 de janeiro, um menor de 15 anos e morador de rua, foi abordado por trinta rapazes, moradores do bairro do Flamengo, no Aterro que dá nome aquele bairro da zona sul do Rio. Cansados da onda de violência – assaltos, furtos e intimidações a ciclistas, turistas e transeuntes que utilizam a área de lazer do parque para praticar esportes no período noturno – que assola o local, o grupo de moradores sentiu-se no direito (e certamente dever) de colocar em prática aquilo que a polícia diz fazer – mas não faz: impor ordem na região. Após darem uma surra no rapaz, prenderam-no com uma tranca de bicicleta, nú, para que esperasse a chegada da polícia.

De fato, o Aterro do Flamengo – idealizado e criado nos anos 1960, durante o governo de Carlos Lacerda, pela paisagista Lota de Macedo Soares – transformou-se ao longo dos últimos anos numa região de abandono e degradação, especialmente no período noturno. Mendigos, famílias morando debaixo de passarela e ladrões em busca de um ganho fácil são personagens que povoam aquele habitat. Como filho feio ninguém quer assumir, nenhuma autoridade admite a culpa. A Polícia Militar diz que faz constantemente faz policiamento no local, mas relatos de frequentadores do Aterro dizem ser comum andar quilômetros e não avistar a presença de policiais. Quem acompanha jornais e noticiários pôde perceber que o índice de violência naquela região aumentou assustadoramente.

II. A REPERCUSSÃO

Assim que a notícia ganhou as redes sociais, o caso ganhou destaque. Se fosse feita uma aferição, nos últimos dias, do assunto mais comentado nas redes, sem sombra de dúvidas veria o caso do menor preso com tranca de bicicleta nos trending topics do Twitter e Facebook. Só se fala nisso. Debates e postagens acaloradas dão o tom num assunto pra lá de polêmico, já que mexe com diversos assuntos explosivos, desde o preconceito racial e social, até mesmo a questão da luta de classes e o “fazer justiça com as próprias mãos”.

III. A ANÁLISE

gangues

No filme “Gangues de Nova York” (2003), em plena Nova York de 1846, gangues de italianos e irlandeses rivalizavam em pé de guerra. O jovem Amsterdam (interpretado pelo jovem Leonardo DiCaprio), buscava se vingar de William “The Butcher” Cutting (em mais uma magistral atuação de Daniel Day-Lewis), que era o assassino de seu pai (Liam Neeson) – líder da gangue Dead Rabbits. O filme era bastante violento e o tema central era: “até que ponto é aceitável se fazer justiça com as próprias mãos?”

O chamado “justiçamento” ocorre em dois casos: por instinto, imediatamente após uma ação que nos é violenta e nos causa alguma espécie de perda sentida; e pela total perda de credibilidade das autoridades responsável por prender e aplicar penas. Na Nova York de 1846, havia a certeza de que a polícia era corrupta e conveniente a determinados grupos, em troca de ganhos e benesses. Ocorre onde há ausência e abandono do poder público. É o chamado “cada um por si”, fazendo as próprias leis. Isso acontece todos os dias em nossa cidade, desde os guetos e grotões (z0na oeste, subúrbios e morros) – por milícias e traficantes – até mesmo em nobres bairros da Barra da Tijuca, zona sul e até mesmo regiões da zona norte – através da segurança de rua que você mensalmente paga para “dar uma proteção” especial contra “aqueles que não são bem-vindos”.

O episódio do dia 31 de janeiro é apenas mais um, dentre os inúmeros exemplos de “justiçamentos” que acontecem no Rio de Janeiro, em São Paulo e qualquer capital do país.

Entretanto, percebe-se que as apaixonadas discussões geradas em torno desse episódio têm desviado o foco para outras questões – entre as quais o preconceito racial e a luta de classes. Se o caro leitor fizer uma estatística para as principais questões nacionais, envoltas em algum tipo de crime, delito ou má-conduta, perceberá que a maior parte terá explicações no preconceito de cor ou porque a elite oprime o pobre. Não se pretende fazer aqui uma negação desses dilemas – até porque é quase unânime ver que nos julgamentos e dosimetrias penais, quem tem mais dinheiro e status social sempre se dá bem. Se alguém for rico e satisfatoriamente intelectualizado (leia-se: tenha tido mais chances de frequentar uma escola e universidade) e roubar cofres públicos, terá bons advogados e algum tipo de mordomia na prisão – SE for para a prisão, claro. Já um ladrão de galinhas, padecerá no inferno dos presídios superlotados, sujeito a condições inóspitas e sairá mais revoltado ainda do que quando entrou.

MENOR 2Incomoda porém, ver essa unanimidade em torno desses dois assuntos: tudo pode ser explicado pelo preconceito racial ou pela luta de classes. Analisando o discurso das mensagens postadas no Facebook, vemos que a palavra “negro” acompanha a caracterização do menor preso e espancado. Como se o fato dele ser negro apimente ainda mais o delito causado pelos trinta rapazes. Será que é esse o caminho? E se o menor fosse branco, morasse no edifício Cap Ferrat (Ipanema) e tivesse como hobby assaltar para comprar drogas? O justiçamento seria mais aceitável, nesse caso? Veríamos a palavra “branco” acompanhando as postagens? Algumas imagens postadas chegaram a apontar um paralelo entre o escravo do século XIX, que era açoitado, ao menor preso com tranca de bicicleta. Apesar de ainda hoje vivermos numa sociedade desigual, onde a maioria da população negra trabalha em serviços considerados desvalorizados, com baixos salários – domésticas, pedreiros, seguranças etc – isolados em guetos e proibidos de “dar um rolé” nos shoppings das cidades, creio que a comparação com a escravidão dos tempos de outrora seja demasiadamente fantasiosa. Até porque basta ler obras de historiadores contemporâneos para entendermos que não era difícil que o escravo, quando conquistasse sua alforria, comprasse escravos, tornando-se senhor destes. Durante muito tempo atribuiu-se ao escravo um perfil amorfo, ingênuo e bobo, como se ele apenas trabalhasse e ficasse à noite na senzala. João José Reis, em seu fabuloso livro sobre Domingos Sodré (leia aqui a resenha do livro), mostrou que os escravos pensavam e constituíam uma teia de relações sociais em volta de si, não somente comprando escravos, mas também adquirindo posses, casas, terrenos e negócios como ofício.

Novamente vale lembrar: não vai aqui nenhuma intenção de defesa pelo ocorrido só porque nega-se o paralelo escravista. Ninguém tem que fazer justiça com as próprias mãos. Pra isso existe a polícia. Ninguém tem que prender alguém que acaba de nos roubar – pra isso existe uma delegacia. E tampouco devemos fazer um julgamento sobre essa pessoa – pra isso existe um tribunal, um juiz e as leis. É compreensível que existam pessoas que façam isso – como já escrito acima, pela conjuntura de total crença na Justiça e principalmente na Polícia Militar – descaracterizada ao longo de sua história bicentenária por pessoas que não honraram a farda que vestiram. É compreensível, mas é absolutamente inaceitável o “olho por olho”, “dente por dente”. Nessa lógica, chegará o dia em que todos estaremos mortos.

Outra questão delicada é ver a apropriação política e partidária que certos grupos radicais extremados vêm fazendo desse episódio, como válvula de escape para sua insatisfação social, e também de raposas políticas que ficam longe dos noticiários durante o ano e só aparecem nesses momentos de polêmicas, visando tirar algum proveito da situação. Se dizem totalmente identificados com a causa do menor, mas no poder, esquecem disso.

IV. AS CONSEQUÊNCIAS

intolerancia

Discursos inflamados, intolerâncias, mágoas. “Seu fascista!”; “Tem pena do menor? Leva ele pra casa”; “Seu coxinha reacionário!”; “Bandido bom é bandido morto” – e por aí vai. Essas são algumas, das inúmeras frases de efeito que povoam as redes sociais nesses tempos de radicalismos apaixonados. Como se tudo fosse pretexto para ser politizado e defendido até a morte. Muita calma nessa hora. Não é porque as pessoas pensam de forma diferente que amizades precisam ser desfeitas, ou então alguém invada o mural (do Facebook) alheio para vociferar veementemente, querendo impor sua opinião. Porque se você critica e se mostra intolerante com aquele que defende a idéia de justiça feita com as próprias mãos, no fundo você está tomando o mesmo partido daquele que critica. Se os rapazes que espancaram o menor de 15 anos demonstraram intolerância, você faz o mesmo ao dizer que irá deletar aquele que é partidário dessa idéia. A intolerância é a mesma, só mudam os atores.

Mesmo que no fundo uma opinião que você lê seja desagradável, não somos superiores ao ponto de achar que apenas o que nos interessa é aquilo que concordamos. O Mal – seja ele explicado pela teoria da banalidade, de Hannah Arendt, ou pela racionalidade premeditada a ele atribuída – serve de estudo até hoje. Não concordamos com Hitler, Stálin e Mao (só para citar alguns), que deixaram um rastro de milhões de mortes, mas enquanto historiadores, tentamos entender o que levou estas personagens a tamanha crueldade. E percebemos que no fundo, o contexto histórico-social que levou Hitler a matar seis milhões de judeus é o mesmo contexto social de indignação com as instituições de segurança pública (Polícia, Guarda Municipal etc) que teve como consequência a deprimente imagem do menor de rua preso e espancado num local público. Tudo é a mesma coisa. E o sentimento de vingança que tomou conta das pessoas brigam e se digladiam nas redes sociais, em torno desse tema – utilizando explicações e paralelos que lhes são apropriados naquele momento -, é o mesmo que leva um miliciano ou traficante a querer expulsar da sua comunidade uma pessoa que lhe causa problemas.

Em tempo: se você chegou até aqui na leitura, não precisa concordar comigo. Mas por favor, não me exclua se não concordou. Utilize a seção dos comentários para escrever o que pensa. Você tem todo o meu apoio e incentivo para fazer isso.

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Categorias:Uncategorized
  1. luiz fernando
    fevereiro 7, 2014 às 17:58

    concordo

  2. Margarida Sousa
    fevereiro 8, 2014 às 11:29

    À primeira vista nos deparamos com uma cena chocante. Parando um pouco e esquecendo o choque da cena, vimos que a “justiça” é feita por um povo que já está de saco cheio da ausência de autoridades. A verdade é que os menores vem adquirindo cada vez mais direitos para cometer os delitos que melhor lhes convém e na falta da punição pela via legal, o povo já começa a fazer uma justiça que não lhe cabe a iniciativa.

  3. Evandro Carlos Pinheiro Ribeiro
    fevereiro 9, 2014 às 15:43

    Bom texto. Reflexivo, claro e oportuno.

  4. Luz13
    fevereiro 25, 2014 às 19:02

    Olá! gostei do blog. Veja as previsões de Aline, da Cidade das Pirâmides, para o ano de 2014. https://www.youtube.com/watch?v=6v_iFO6_dyc Abçs

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