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Os 50 anos do golpe: o estado da arte


ccbb rjNas rememorações dos 50 anos do golpe civil-militar que mergulhou o país num regime de exceção, diversos eventos e novas publicações vêm surgindo, como efeito da importância que o tema suscita nas discussões – antes restritas aos muros acadêmicos. É muito bom que isso aconteça e faça parte de um processo que envolva e mobilize a sociedade, principalmente porque ainda permanece a idéia de uma “transição inconclusa”, no que diz respeito aos traumas e reparações – apenas agora a Comissão Nacional da Verdade trabalha em temas sensíveis, como por exemplo a tortura e o desaparecimento de presos políticos.

Acaba de acontecer no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, a 10a Quinzena – 50 anos do golpe de 1964. Ao longo de duas semanas, diversas personalidades debateram os acontecimentos que antecederam, ocorreram e se sucederam ao golpe – desde artistas engajados, passando por jornalistas e acadêmicos especializados. Os debates foram bastante concorridos, com lotação máxima todos os dias. O público foi muito diversificado, com muitos idosos – que vivenciaram os anos de chumbo -, pesquisadores sobre a ditadura e estudantes de História. Uma variedade de temas foram abordados: o caso Vladimir Herzog; a imprensa e a ditadura; a engrenagem repressiva da ditadura e os métodos de tortura utilizados; a MPB e a ditadura; Futebol e ditadura; a universidade e o regime militar; arte e pop em 1964; o governo Jango e o golpe de 1964; e as hesitações da esquerda ante o golpe de 1964.

Ditadura-à-brasileiraEventos de igual potencial foram e ainda vêm ocorrendo nas universidades, bibliotecas e associações. Nunca o golpe de 1964 foi tão analisado e tão debatido. E cada vez mais surgem questões à respeito. Sem dúvidas, o tema ainda deverá render bastante, principalmente diante das novas publicações que estão surgindo, levantando polêmicas.

É o caso do livro “Ditadura à brasileira – 1964-1985: a democracia golpeada, à esquerda e à direita”, do historiador Marco Antônio Villa, da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo. Trata-se de um livro que vem gerando bastante polêmica, principalmente no meio universitário. O autor, que participa frequentemente dos programas da Globonews como analista político – sendo um dos principais críticos do governo (e do PT) – levanta no livro uma tese incomum: a de que a ditadura só teria durado onze anos – de 1968 (com a implementação do Ato Institucional número 5) até 1979. Um dos pontos favoráveis no livro é a linguagem bastante acessível ao público leigo – e certos momentos dá a impressão de ter sido escrito por um jornalista. Por isso, talvez, o autor seja tão popular entre o público não especializado em História. Mas isso de modo algum chega a ser um ponto positivo, já que não basta apenas ter uma linguagem mais próxima ao grande público se não há rigor acadêmico na apuração das fontes e na metodologia utilizada – e aí sim, reside o grande problema do livro. Quase 75% do texto é baseado apenas em acontecimentos – a história factual, tão menosprezada pelos meios acadêmicos. Somente no quarto final da obra é que o autor resolve expor seu ponto de vista. Marco Antônio Villa já tinha sido alvo de outras polêmicas anteriores, como a sua chancela a um editorial da Folha de São Paulo, alguns anos atrás, onde a ditadura brasileira era chamada de “ditabranda”. Como se nosso regime de exceção fosse “menos pior” do que as outras ditaduras de Nuestra America – não é mesmo?

Arte-Universidades_RM02.inddSaindo da esfera da histoire événementielle (dos acontecimentos) e mergulhando nas profundezas de uma história  encarada com seriedade e preocupada com a análise dos contextos e das redes de sociabilidade existentes na ditadura, uma das melhores obras que surgiram nessa nova onda de publicações sobre os 50 anos do golpe é “As universidades e o regime militar”, do professor e pesquisador mineiro Rodrigo Patto Sá Motta (UFMG). Na publicação – que utilizou uma grande base empírica – entrevistas, arquivos, documentos, fichas etc – o autor analisa o impacto que a ditadura teve nas universidades brasileiras. E mais: como atuaram, no meio acadêmico, aqueles que apoiaram o golpe? O autor mostra um dado interessante: muitos professores que eram simpáticos às idéias de esquerda – muitos inclusive perseguidos pela ditadura e que deixaram o Brasil – eram chamados de volta às universidades por reitores que, à despeito de posições políticas, buscavam reforçar as instituições de ensino com profissionais de grande importância no meio acadêmico. Decerto que essa prática ocorreu mais nas áreas das ciências médicas e tecnológicas, mas é interessante ver que mesmo os professores “vetados” pelo SNI, foram garantidos por reitores e diretores preocupados com a excelência do ensino. Sem dúvidas, os anos de chumbo realizaram um grande upgrade nas universidades. A começar pela implementação dos programas de pós-graduação que foram criados, e fins dos anos 1960 e início dos anos 1970. A ditadura deu especial atenção ao ensino superior e à pós-graduação. “As universidades e o regime militar” é, com certeza, uma obra praticamente inédita e que contou com uma pesquisa de fôlego.

ditadurademocraciaNa esteira dos lançamentos dedicados à analise dos 50 anos do golpe, é importante destacar também dois novos trabalhos de Daniel Aarão Reis. Em “A ditadura que mudou o Brasil”, organizado em parceria com Marcelo Ridenti e o próprio Rodrigo Patto Sá Motta, o professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) apresenta uma obra recheada de textos interessantes sobre a ditadura – que prefere chamar de “civil-militar”. Há textos sobre a memória do presidente-general Emílio Garrastazu Médici em Bagé – sua cidade natal (da pesquisadora Janaína Martins Cordeiro, também da UFF), sobre a rebelião dos marinheiros às vésperas do golpe de 1964 (de Anderson da Silva Almeida – também autor de “Todo leme a bombordo” – livro vencedor do Prêmio de Pesquisa Memórias Reveladas, em 2010), e as transformações econômicas no regime militar, entre outros textos de grande monta. “Ditadura e democracia no Brasil” é outra publicação que acaba de chegar às lojas, também escrito por Daniel Aarão Reis. Nela, o autor busca compreender as raízes, as bases e os fundamentos históricos da ditadura, as complexas relações que se estabeleceram entre ela e a sociedade e, em contraponto, o papel desempenhado pelas esquerdas no período. Trata-se de uma revisitação ao tema, que já fora abordado num outro livro seu – “Ditadura militar, esquerdas e sociedade”, lançado no ano 2000. Temas como a retomada do nacional-estatismo (outrora presente no Estado Novo varguista e na Era JK) no governo Médici, o pragmatismo responsável do governo Geisel e a transição democrática são abordados nesta obra que merece especial atenção por se tratar de uma análise bem acurada pelo autor – estudioso do tema.

capa_1964_golpe_flavio_tavares.inddDois jornalistas também escreveram livros sobre o golpe de 1964. Flávio Tavares (autor de “Memórias do Esquecimento”), foi um dos presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, à época da ditadura militar brasileira e escreveu “1964 – o golpe”, uma obra onde analisa o golpe por uma ótima mais nacionalista, defendendo a idéia de que o golpe foi decidido em Washington (EUA). Embora seja uma visão já ultrapassada, já que as pesquisas apontam para a idéia de que o golpe sempre fora conduzido pelos militares brasileiros, não sendo necessária a intervenção militar dos EUA, vale a leitura, principalmente para se conhecer o ponto de vista de um ex-militante da esquerda partidária da luta armada. Acompanhando a análise jornalística sobre o golpe, “A ditadura militar e os golpes dentro do golpe”, do jornalista Carlos Chagas, busca apresentar a história contada por jornais e jornalistas, revelando o período entre 1964 e 1969, sob a ótica de quem viveu os bastidores do regime na imprensa.

Mas como explicar a “estranha derrota” de João Goulart em 1964? Em “1964 : O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura militar no Brasil”, Jorge Ferreira (autor da renomada biografia do ex-presidente João Goulart) e Ângela de Castro Gomes (autora de “A invenção do Trabalhismo”) buscam compreender os antecedentes do dia 01 de abril de 1964, seus personagens e momentos que marcaram o período, utilizando, para isso, fontes de jornais e revistas. A obra destaca aspectos interessantes, como os movimentos desempenhados pelas esquerdas (sim, eram várias, de distintas tonalidades e propósitos no jogo do poder) e pelas direitas (civis e militares). O livro foge ao lugar-comum, com uma linguagem de fácil percepção, destacando a idéia de que o golpe de 1964 não era inevitável.

O_Golpe_de_1964

Em “O golpe de 1964: momentos decisivos”, Carlos Fico – historiador e professor titular de História do Brasil da UFRJ -, aposta no didatismo. Trata-se de um livro de bolso, destinado ao grande público, com o texto baseado em suas pesquisas. Nela, Fico analisa os momentos dramáticos vividos pelo Brasil às vésperas do golpe, demonstrando como este virou “ditadura” – como o evento de março de 1964 inaugurou o mais longo regime autoritário da história do Brasil republicano. Carlos Fico defende a idéia de que o golpe, em si, foi civil- militar, e a ditadura foi apenas militar, já que o poder decisório sempre esteve nas mãos dos militares.

Sem dúvidas, o golpe de 1964 está na moda. É uma boa notícia. E esperamos que cada vez mais a sociedade – e principalmente as novas gerações – tenham acesso ao tema. Novas publicações ainda irão surgir este ano e o assunto ainda está longe de ser esgotado.

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